sábado, 30 de junho de 2018

Sombras

Por Laicrogos Negromonte

As sombras e suas várias facetas, às vezes, fazem-nos refletir sobre a liberdade, liberdade que está bem além delas; outras vezes, aprisionam-nos. Não conseguimos suplantar as sombras que nos perseguem. Parece até que a vida se resume em contemplar sombras: sombras do passado que o presente não consegue apagar; sombras das antigas paixões que insultam o amor vivífico; sombras de preconceitos, de injustiças, de destruições, de mentiras, de ambições, de traições, enfim, sombras que nos fazem pensar... 
O melhor não seria se acomodar com o mundo limitado e fluido das sombras ou afoitar-se à luz, buscando-a mais e mais, com o risco de até cegar, como os que olham incessantemente para o Sol? 
Serafim rolava na cama de um lado para o outro. Dizia: 
- Não! Não! Não! 
Ele sonhava com sombras. 
Caminhando contra o vento, a contemplar as ruas antigas da cidade natal, meio inebriado pelos perfumes dos jasmins e das roseiras que enfeitavam a praça principal, parou diante da pequena imagem de Nossa Senhora de Montserrat. Era um fim de tarde dourada. Serafim punha-se de joelhos e começava a rezar a Ave-Maria. Enquanto rezava ouvia uma voz vinda não sabia de onde, talvez de um vulto perdido ou da própria Virgem. 
- Tire-me daqui! Estou presa neste cubículo fechado por uma porta gradeada e sombria. Nunca abençoei matança de índios. Diga para esses malfeitores cruéis e sanguinários que eles estão noutro lugar, bem longe do meu Filho. Suas orações movidas a ódio e ganância, jamais foram ouvidas no Céu. Diga para essa gente que a mãe de Jesus não suporta injustiça nem acoberta o egoísmo e a hipocrisia. 
Serafim deu uma cabriola e saiu dali meio desequilibrado, nem olhou para trás. Fez de conta que tudo aquilo não passava de imaginação na sua cabeça atordoada. Seguiu na mesma rua. As primeiras lâmpadas acesas denunciavam a noite de lua cheia incomodada por nuvens pesadas em tempo de inverno. Parou diante de um centenário e imponente sobrado. Ouviu um barulho de porta batendo no mirante. Notou sombras passageiras, brilhantes, como centelhas de espíritos raivosos. Olhou para cima meio assustado: 
- Ah, aqui está o famoso sobrado de dona Auta – disse Serafim baixinho, com a voz embargada. 
Então, ouviu uma mulher murmurando: 
- Faz tanto tempo que meu marido embarcou no navio com destino à Bahia... Só saio daqui quando ele voltar. Além da saudade sinto tristeza ao ver o que fizeram com a minha casa. Até um cabaré inventaram por aqui e hoje querem construir uma fossa no meu quintal. Não tenho sossego. Vão todos para o quinto dos infernos! 
Com as pernas trêmulas, a pele arrepiada e os olhos esbugalhados, Serafim correu para a praça e sentou-se num banco de madeira. Ali relaxou por alguns minutos, sem perder a visão da majestosa lua cheia. Caiu na razão e começou a refletir sobre os sinais que acabara de receber: 
- Onde é possível encontrar a verdade, na realidade dos vivos ou nas instâncias do além? Será que a luz do saber se projeta tanto no mundo inteligível quanto no universo espiritual? Tudo não seria uma questão de estudo, de interpretação, de intuição e de fé? 
Enquanto isso, um bando de patos selvagens passou como uma nuvem em direção ao Delta do Parnaíba. Serafim levantou-se e foi embora. 
Edição: Mário Pires santana

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