quarta-feira, 4 de julho de 2018

É Copa do Mundo: vamos deixar o povo torcer em paz

POR *PAULO MOREIRA LEITE
À espera dos próximos jogos da Copa, é oportuno dedicar alguns minutos de reflexão a um dos mais conhecidos costumes do país -- falar mal do futebol.
Salvo empresários globalizados que descobriram a força do futebol como ponto de marketing e caminho para lucros bilionários, compreende-se que os círculos conservadores tenham um desprezo aberto pelo mais popular de nossos esportes. É parte do esforço cotidiano para proteger o próprio sistema de dominação, tarefa que se apoia no rebaixamento daquilo que expressa valores e vitórias -- mesmo simbólicas, mesmo passageiras -- das chamadas camadas subalternas.
Desprezam o futebol da mesma forma que desconhecem a riqueza de nossa música popular, adoram passar férias no exterior -- de preferência, numa exótica aldeia do Sudeste Asiático, inacessível mesmo para turistas de classe média. Também mantém uma distância cada vez maior diante instituições que expressam direitos e conquistas do povo, cultivando um compromisso ideológico pelo enfraquecimento do ensino público, pela destruição da saúde pública e assim por diante.
É uma postura coerente num país como o nosso, onde vigora um sistema de dominação apoiado numa rígida estrutura de classes e de raça. O preconceito,
aqui, atinge um ponto sofisticado de elaboração. Praticado com os pés, dominado por um formidável elenco de jogadores negros, que aqui conquistaram um espaço raro para exibir seus talentos e receber a remuneração paga pelo mercado, o futebol é visto como uma expressão de traços primitivos dos brasileiros, confirmando o estereótipo vira lata de povo emotivo, que seria incapaz de uma visão racional da vida e suas complexidades. Coisa que Jessé Souza explica muito bem no seu "A Elite do Atraso". 
O curioso é que muitas pessoas que se consideram progressistas e até de esquerda também cultivem um desprezo soberano pelo futebol. No Brasil de 2018, cidadãos e cidadãs lúcidas, capazes de ter um pensamento coerente sobre a crise e as dificuldades do país, são capazes de associar a venda de blocos do pré-sal e outras mazelas produzidas pelo governo Temer & Cia à empolgação produzida pela Seleção Brasileiro nos gramados da Rússia. 
A impressão é que julgam a população brasileira tão ignorante, tão alienada, tão distante da vida real, que seria capaz de confundir um golaço de Neymar com uma articulação corrupta de Michel Temer, um drible de Phillipe Coutinho com uma operação escandalosa com ações da Petrobras na Bolsa de Nova York e assim por diante. Essa visão não tem lógica alguma mas é compreensível em função de nossos hábitos políticos. Numa conjuntura de beira de abismo, nossos intelectuais, dirigentes e acompanhantes próximos procuram um álibi para explicar sua dificuldade de serem ouvidos pelo povo, que hoje enfrenta, perplexo e desenganado, uma das grandes derrotas políticas de 500 anos de história.
O problema deste raciocínio é simples.
Por uma questão de honestidade e lucidez, é preciso reconhecer que o futebol em geral e a copa da Rússia particular têm pouco a ver com a tragédia -- econômica, social e política -- do Brasil de hoje. Não é possível negar que a onda conservadora e destrutiva estaria seguindo seu curso mesmo que a Seleção de Tite tivesse caído fora ainda nas eliminatórias. 
Mesmo reconhecendo que o desmanche do país é um processo permanente, que deve ser enfrentado -- e combatido -- palmo a palmo, minuto a minuto, tampouco se pode ignorar que as batalhas determinantes e decisivas são anteriores. Ocorreram em abril de 2016, quando a Câmara deu o primeiro passo para o golpe contra Dilma. Em novembro do mesmo ano, quando se aprovou o fim da obrigatoriedade da participação da Petrobras na exploração do pré-sal. Em julho de 2017, quando os direitos trabalhistas foram eliminados. Em 7 de abril de 2018, quando Lula foi preso. Vamos combinar que as maiores responsabilidades não devem ser procuradas na torcida que vibra em frente aos telões, na mesa de botequim, em casa com parentes e amigos.
O foco não está aí mas num debate político necessário que envolve lideranças políticas que, dentro e fora de nossos governos, nossos partidos, ministérios, organizações sindicais e redes sociais, não souberam ou não foram capazes de oferecer respostas adequadas no momento preciso. Falharam. Falhamos. Omitiram-se. Omitimo-nos. Deslumbraram-se com glórias passageiras. Deslumbramo-nos. Você pode listar outros erros, desvios, o que quiser, ocorridos entre 2003 e 2016. Pode chegar a ontem. 
Lembrando sempre que fomos atacados e derrotados em função de nossas virtudes, e não por nossos defeitos, é bom reconhecer que vivemos não apenas uma hora de luta e resistência -- mas de humildade e lucidez, para a crítica e auto-crítica. É assim que os países crescem e a população amadurece. Só não vale colocar a culpa no povo, o exercício predileto de todas as correntes do charlatanismo, cuja prioridade absoluta reside em produzir discursos de tom heróico no esforço para esconder as responsabilidades do andar de cima.
Nesse debate, convém lembrar o papel do futebol na formação de Luiz Inacio Lula da Silva, o maior líder popular que o país já teve. Entre as muitas lições de um currículo respeitável, Lula fez do futebol o instrumento principal de diálogo político com a grande maioria dos brasileiros, que têm aí uma de suas maiores referencias para a reflexão e a ampliação dos conhecimentos. 
Para quem ainda não entendeu a importância do que está em discussão, convém explicar. Em 1958, num momento compreensível de afirmação nacional na industrialização de JK, o país gritava "a taça do mundo é Nossa, com o brasileiro, não há quem possa" . Sob o regime militar, o futebol só pode ser usado para engrossar o execrável coro Ame-o ou Deixe-o após uma intervenção direta da ditadura Médici na Seleção, afastando o técnico João Saldanha, membro do PCB, um dos alvos prediletos da repressão mais feroz. O futebol brasileiro também produziu a memorável Democracia Corintiana que ajudou na luta pela anistia e na derrota da ditadura. Em 2012, a Gaviões da Fiel emocionou a platéia do carnaval paulistano com uma homenagem a Lula. 
Por entender esse ponto fundamental Lula nem precisava estudar o conceito de hegemonia de Antonio Gramsci para organizar o debate político brasileiro durante décadas -- conversando com o povo através do futebol. Na Vila Euclides ou no Planalto, mostrou-se capaz de mobilizar homens e mulheres mantidos a margem do sistema político tradicional. Em vez de considerar futebol como alienação, escapismo, e outras sociologias semelhantes, mostrou que é reflexão e linguagem, instrumentos essenciais em toda disputa política. Nunca escondeu que não trocava um caderno de esportes dos jornais pela suposta sabedoria de nossas páginas políticas. Intérprete único de nossa cultura popular, explicava quando era preciso avançar e recuar, quando era hora de virar o jogo e assim por diante. 
Curiosamente, ninguém pode dizer que a gigantesca aprovação a seu governo deve alguma coisa ao desempenho da Seleção em Copas do Mundo. Na prova definitiva de que a população sabe separar as coisas, e não confunde vitórias e derrotas da vida política com conquistas e revezes nos estádios, durante o governo do mais popular presidente da história o país nunca foi campeão. Nunca. Nem por isso os brasileiros deixaram de votar em Lula e Dilma sempre que tiveram essa oportunidade. Mesmo no dificílimo pleito de 2014, após o terrível 7 a 1 para os alemães. Também votaram em Lula em 2002, pouco depois do Brasil conquistar o penta, com ajuda do tucano Ronaldo Fenômeno -- no governo FHC. 
Alguma dúvida?
*Paulo é colunista do 247, ocupou postos executivos na Veja e na Época.
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana 

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