sábado, 21 de julho de 2018

O que é o ódio? Por acaso tem cura?

Por Miguel Dias Pinheiro, advogado

O espanhol Ignácio Morgado Bernal, catedrático em Psicobiologia no Instituto de Neurociência da UAB, em Barcelona, com estudos no Instituto Tecnológico da Califórnia, autor do livro “Emoções Corrosivas”, diz que “a situação política que vivemos há anos está deixando muitas sequelas de ódio. Nas redes sociais esse ódio se manifesta com virulência e até com nome e sobrenome. E eu me preocupo mais com essas sequelas do que com a própria evolução da situação política, ainda que ambas estejam relacionadas”. E faz as seguintes indagações: “O que é ódio? Por acaso tem cura?”.
O poeta, romancista e ensaísta alemão Hermann Hesse, Prêmio Nobel de Literatura, deixou dito que: “Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba”. O célebre francês Victor Hugo, autor de "Os miseráveis" e "O Corcunda de Notre Dame", deixou-nos uma lição exemplar: “Quanto menor é o coração, mais ódio carrega”.
Bernal entende que “as pessoas retratam o ódio apelando para emoções negativas e intensas, como o desprezo, a raiva ou o nojo, causados pela crença ou o julgamento de que o outro, o odiado, é um ser malvado e detestável. É como um estado de excitação, de fixação no odiado, e de desejos de vingança”.
Infelizmente, nos últimos anos assistimos atônitos momentos ímpares em nossa história político-social brasileira, onde o ódio é individual e compartilhado por muita gente nas redes sociais. “Odeia-se muitas vezes a quem se considera fora da justiça e moralmente excluído, negando-lhe direitos sociais e bom tratamento” (...) “Os responsáveis desvalorizam as vítimas cada vez mais e no fim deixam de tratá-las como pessoas” (...) Quem odeia se sente conduzido a levar os outros a odiar como eles, pois a validação de seu ódio pelos outros reforça sua autoestima ao mesmo tempo em que os impede de raciocinar sobre suas próprias inseguranças”, avalia o neurocientista.
Para Bernal, o ódio é especialmente grave quando, além de mudar pensamentos e emoções, proclama e prega a condenação moral e a desumanização dos odiados. Para tanto, cita suas fontes: a) crenças e preconceitos; b) por ideologia, especialmente quando se torna fanatismo, que costuma reagir a ódios ancestrais que interessa perpetuar, e a ambições de poder. “A hostilidade em relação a outro grupo aumenta a solidariedade e a coesão no próprio grupo”.
No Piauí, por exemplo, de certo tempo para cá surgiram grupos que se consideram moral e até intelectualmente superiores a outros. E vejam como essa gente se apresenta, com uma “superioridade” (entre aspas, claro!) para que a pessoa odiada sequer integre o seio social.
Vejam que absurdo! O recurso usado: “demonização” do adversário, da pessoa odiada através da virulência verbal incitando ódio e legitimando violência contra as pessoas odiadas. Enfim, perdeu-se a inibição para a desqualificação! E por gente de certa cultura.
O cientista avalia que “do amor ao ódio é só um passo”. Diz que “os processos que mudam o sentimento de ódio são lentos e exigem compreender suas raízes, cicatrização, reconciliação, contato intenso entre as pessoas, trabalhar para compartilhar projetos comuns, criar uma história do passado aceitável tanto pelos que odeiam como pelos odiados, e, sobretudo, humanizar o odiado, deixar de considerá-lo perverso e sentir que é alguém que também pensa e tem suas próprias ideias e sentimentos”.
“Todos temos sentimentos bons e ruins ao longo da vida. Expectativas frustradas ou não aceitar alguns acontecimentos podem gerar rancor e ódio. O problema é nutrir estes sentimentos. O poeta inglês George Lord Byron disse uma realidade frustrante: “Os homens amam com pressa, mas odeiam com calma”. Isso significa que as pessoas guardam mais sentimentos ruins do que bons. Assim, ficam amargas, afastando parentes e amigos do convívio, gerando tristeza e dor. Um dado importante: cultivar o ódio pode prejudicar a saúde”, diz Marcelo Levites, médico, clínico geral, coordenador do programa de longevidade do Hospital 9 de Julho, diretor da SOBRAMFA - Educação Médica e Humanismo, mestre em Educação e doutor em Ciências Médicas pela Universidade de São Paulo (USP).
Por fim, vítimas como Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá e Nelson Mandela nos mostraram como buscar o bem coletivo. E mais. De que uma boa educação para combater o ódio deveria ensinar a cada um de nós a ser sábio mais do que inteligente, pois o ódio nunca resolve problemas. Ao contrário, faz é sempre fomentá-los e agravá-los. Isso porque “o odioso é a porta de saída do ridículo” (Victor Hugo).
O ódio tem cura? Cientificamente, não! Comportamental e espiritualmente, a doutora em Ciências da Comunicação, Magali do Nascimento Cunha, tem uma magnífica receita: “Um dos maiores desafios do ser humano tem sido existir e coexistir na terra que habitamos, na nossa casa comum. Por isso a necessidade da tolerância, a atitude de aceitação e respeito entre seres humanos em sua diversidade, em responsabilidade com a vida em comum. Significa atribuir valor às diferenças, quaisquer que sejam, entre os indivíduos, que compõem o incrível mosaico que é o mundo. Portanto, tolerância não é a convivência entre iguais, mas a vivência em comum que leva em conta diferenças, divergências, discordâncias como componentes do coexistir humano”.
Nesse sentido, diz a doutora, tolerar não significa “aguentar” viver ao lado de outrem, mas a consciência do direito que cada pessoa tem de viver e de conviver no planeta que habitamos, de ser aquilo que é. A “regra de ouro” que Jesus Cristo formulou reflete muito bem o sentido de tolerância: “Façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam”. Porque o ódio é perverso e denuncia um coração de maldade!
Fonte: Portal AZ
Edição: Mário Pires Santana

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