domingo, 26 de agosto de 2018

A revanche de Nara coração de Leão

Pela primeira vez são editados registros ao vivo da cantora, com releituras únicas de 'Tigresa', 'Onde o Sol Bate e Se Firma' e 'Vai Passar'.
Por Pedro Alexandre Sanches 
O selo Discobertas recupera shows da artista em 1965, 1972, 1978 e 1985/Sílvio Ricardo Ribeiro/Estadão Conteúdo
Um Brasil despojado dos menores resquícios de sutileza recebe, atarantado, a notícia de que a capixaba Nara Leão, musa juvenil da Bossa Nova, deixou material inédito gravado ao vivo quando morreu, em 1989, aos 47 anos. A caixa Ao Vivo ‒ Anos 60/70/80, bancada pelo heroico selo Discobertas, de Marcelo Fróes, recupera em quatro CDs shows da cantora que nunca publicou um disco ao vivo, registrados respectivamente em 1965, 1972, 1978 e 1985.
Num flagrante pretérito de imensa ternura em contraste com a brutalidade do presente, ela interrompe o show em 1978 e se diverte: "Eu tô com vontade de espirrar. Mas eu nem espirro nem passa a vontade. Com licença. Desculpe. Não posso fazer nada, peraí". Em seguida, canta Sem Compromisso (1944), samba de Geraldo Pereira que o baiano João Gilberto, uma Nara Leão de terno e gravata, viria recuperar do esquecimento em 1986.
O material reunido integra história pura a um relicário de pequenas surpresas. O volume mais acanhado é o de 1965, em que Nara canta repertório de protesto do show Opinião, com Sina de Caboclo, Nega Dinae Tiradentes, uma loa composta pelo comediante Ary Toledo com Chico de Assis, em tom de repente, ao "herói" já em moda naqueles inícios de ditadura civil-militar.
Ao final, volta a 1964, com o protesto-revanche afrofeminino Maria Moita, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes: Nasci lá na Bahia de mucama com feitor/ meu pai dormia em cama, minha mãe no pisador/ (...)mulher que fala muito perde logo seu amor/Deus fez primeiro o homem, a mulher nasceu depois/ por isso é que a mulher trabalha sempre pelos dois/ (...) o rico acorda tarde, já começa a rezingar/ o pobre acorda cedo, já começa a trabalhar/ vou pedir a meu babalorixá/ pra fazer uma oração pra Xangô/ pra pôr pra trabalhar gente que nunca trabalhou.
Em 1972, após participar episodicamente da Tropicália, Nara apresenta a quase anônima Cidade Pequenina, de Caetano Veloso e Roberto Menescal, Filosofia do Samba, de Candeia, e Onde o Sol Bate e Se Firma, de Luiz Melodia, recém-revelado por Gal Costa.
O blues carioca de Melodia só seria gravado, pelo próprio autor, em 1978. O show de 1978 inclui registros únicos, na voz de Nara, do samba conservador de Paulo Vanzolini, em Praça Clóvis, e dos tropicalismos de Caetano, em Tigresa, e de Gil, na ode anti-ditadura ao amor livre O Seu Amor.
'Nara Leão ao Vivo ‒ Anos 60/70/80'. Discobertas, R$ 90 Em 1985, num show devotado prioritariamente à bossa moderna e ao samba de raiz, a não compositora de Maria Moita apresenta com um chiste bem 2018 o trio de canções Fez Bobagem, Camisa Amarela e Com Açúcar, com Afeto: "Eu gostaria de cantar pra vocês agora algumas canções que são na voz de uma mulher, ou seja uma coisa que nem tá muito na moda, né? (...) Eu gosto muito desse tipo de assunto".
E há, ainda, o registro raro de Vai Passar(1984), hino de redemocratização de Chico Buarque e Francis Hime, que Nara não veria concretizada (e nós tampouco, até o momento presente). Na labuta pela vida já havia alguns anos, a artista desbravadora e petulante que era menosprezada como meramente "os joelhos mais bonitos da Bossa Nova" morreu em 1989, vencida por um câncer no cérebro, no coração do Brasil.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são de responsabilidade de seus autores, e não refletem, de maneira nenhuma, a opinião do redator deste portal.