segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As duas margens do rio

Por Laicrogos Negromonte

Aquele rio, ah, sim, sem dúvidas, era um rio verdadeiramente amigo, pachorrento, espelhado, com fragrância de aguapés, nem estreito, nem largo, corria mansamente para beijar o seu grande amor, o mar. Amaciava suas margens, esquerda e direita, sem preconceitos e sem privilégios. Carregava em seu dorso, seres vivos e mortos de todas as espécies. Não reclamava de peso ou de volume, simplesmente seguia o seu curso. Mantinha plena autoridade outorgada pela providência divina e a exercia com base na soberania popular respaldada por todos os integrantes da nação celestial. 
Em sua margem esquerda, estavam pessoas mais simples, mais simpáticas, mais otimistas, que gostavam de novidades, de mudanças. Estabeleciam, naturalmente, laços de confiança e respeito no ambiente de trabalho, na vida social e na opção religiosa. Quando traídas ou exploradas, protestavam, se valiam de todos os meios para alcançar justiça. 
As pessoas à margem direita do rio - umas por terem muitas coisas, outras por almejarem a invejável riqueza - destilavam truculência, soberba, egoísmo e preconceito. Adotavam a lei de "quem for podre que se quebre". Consideravam-se os donos absolutos da verdade e por isso não admitiam diálogo. O admirável
rio não queria saber dessas diferenças, não. Respeitava as embarcações de passageiros e de cargas tanto da sua margem esquerda, quanto da sua margem direita, ciente de que ele era o único meio de transporte da região, pois as estradas vicinais haviam sido destruídas com o arrombamento de uma represa. 
Num sábado do mês de maio, o único barco grande partiu. Estava cheio de morangos em caixinhas de madeira, prontos para a comercialização. Levava ainda em abundância rosas, todas rubras, bem como pimentões vermelhos e acerolas em caixas de plástico. A grande quantidade de mercadoria ocupou quase todo o espaço do convés. Os produtores, integrantes de uma cooperativa agrícola, portavam chapéus vermelhos com a logomarca da empresa. Dia de feira! Cantavam músicas populares com alegria contagiante. 
A segunda parada do barco foi à margem direita do rio. Embarcaram num píer bem construído apenas passageiros vestidos a rigor. Quase todos plantadores de soja. Os homens trajavam paletós e gravatas e a mulheres, vestidos longos. Eram convidados do casamento da filha do prefeito municipal. 
O único espaço disponível no barco para se sentar ficava meio apertado, do lado direito da proa. Assim que entraram foram logo reclamando: 
- Justo neste sábado, um monte de caixas e essa gente malcheirosa e mal-educada - disse uma senhora idosa que usava um vestido azul bordado de pérolas. 
- Quando estivermos lá, vou falar com meu amigo prefeito para acabar com essa balbúrdia - complementou o esposo da senhora. 
Uma linda jovem se aproximou das rosas vermelhas e falou: 
- Mãe, compra pra mim?! 
De pronto, o pai cortou a conversa dizendo: 
- Não e não. Essas rosas vermelhas são coisas de comunistas. 
Em meio a tantos resmungos, tantas exprobrações, tantos comentários negativos e maldosos, a água do rio ficou turva e os aguapés da margem direita perderam o perfume e murcharam. 
O rio, então, resolveu agir. Provocou uma repentina e repreensiva marola que, ao chocar-se com o barco, fez molhar todos os “ilustres” passageiros. 
Edição: Mário Pires Santana

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