domingo, 19 de agosto de 2018

As vidas e as dores de Gilberto Gil

Ok Ok Ok chega repleto de reflexões sobre o envelhecimento e o fim, mas abre espaço para a veia hedonista do artista, ao lado de João Donato.
Por Pedro Alexandre Sanches 
Gil lança canções novas após oito anos/Foto/Divulgação
Após oito anos sem apresentar material autoral inédito, o baiano Gilberto Gil entra direto e reto em Ok Ok Ok, numa faixa-título em que se reporta a todos aqueles que lhe têm cobrado a relativa abstenção em opinar sobre o turbulento Brasil presente.
Não diz com todas as letras, mas a cobrança certamente diz respeito à ambiguidade com que esse importante artista brasileiro da geração dos Pós-Guerras mundiais tem lidado com os sucessivos golpes de Estado contra Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, a democracia, o Brasil.
O lançamento do videoclipe de Ok Ok Ok coincidiu com a ida de Gil ao festival Lula Livre, no Rio de Janeiro, ato que o recolocou em lugar não exatamente inédito: à direita de Chico Buarque (que o acompanhou no canto sofrido de Cálice), à esquerda de Caetano Veloso.
Ok Ok Ok Ok Ok Ok/ sei que não dei nenhuma opinião/ é que eu pensei, pensei, pensei, pensei/ palavras dizem sim, os fatos dizem não, desculpa-se ao final da canção, a dizer talvez que não tem mesmo opinião formada sobre nada, ou talvez que não deve dar muitas opiniões cabais por compartilhar compromissos demais com todas as partes em disputa. Palavras dizem não, os fatos dizem sim.
Ok Ok Ok filia-se à série de sábias canções auto-reflexivas recentes, como Não Tenho Medo da Morte (2008) e Não Tenho Medo da Vida (2010), que o flagram em plenitude, ainda que às vezes na plenitude da ambiguidade. A faixa-título não chega a ser sobre envelhecimento, morte e vida, mas é disso que o álbum Ok Ok Ok trata majoritariamente, depois das situações de perigo de vida por que passou o artista hoje com 76 anos.
Versam explicitamente sobre as agruras da velhice as agudas canções médicas Quatro Pedacinhos (ela arrancou quatro pedacinhos do meu coração, ela é médica e tem todo o direito/ de arrancar o que quiser de mim), Kalil (cardiologista de mão cheia, pega artéria, solta veia, volta e meia faz o morto ficar são) e Jacintho (Jacintho, já sinto aqui na barriga/ mais preguiçosa a bexiga/ mais ociosos os rins/ Jacintho, já sinto aqui no meu peito/ alguns sinais de defeito/ coração, pulmões e afins/ velhice, cálculos, calos, calvície/ hora de chamar o vice/ para assumir o poder). No contratempo do artista que gestou a solar Tropicália meio século atrás, as canções de vida ocupam o outro lado do peito de Ok Ok Ok, com loas a possíveis vices (como Yamandu, para e com o violonista gaúcho Yamandu Costa, de 38 anos) e cânticos leves dedicados a integrantes da dinastia Gil.
Nesse setor sobressaem Uma Coisa Bonitinha e Tartaruguê, que reatam a parceria com o acreano João Donato e o disco hedonista Lugar Comum (1975), em que a dupla se divertia, gargalhava e fumava maconha em formato musical. Vida e morte são como uma presidenta e seu vice (ou vice-versa), conclui o velho poeta.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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