domingo, 19 de agosto de 2018

O alvorecer de Bob Dylan

Disco duplo com raridades assinala o percurso do cantor folk que eletrificou os ouvidos dos puristas e desafiou a inércia do rock.
Por Jotabê Medeiros 
Bob Dylan: do ativista na Marcha de Washington até o incendiário que eletrificou o folk numa coleção de canções de deliciosa raridade/Douglas R. Gilber
O primeiro disco tem 16 canções, e nelas somente vamos encontrar Bob Dylan tocando ao vivo sua gaita, seu violão e cantando. Apenas na música número 10, When the Ship Comes In, gravação de 28 de agosto de 1963, o bardo de Minnesota tem uma ajudinha: a então namorada Joan Baez faz um vocal de apoio durante a famosa Marcha Sobre Washington organizada por Martin Luther King.
Já no segundo disco ele está acompanhado da banda, três formações diferentes em 13 canções, com lendas como o guitarrista Robbie Robertson, o baixista Rick Danko e o organista Al Kooper.
O álbum duplo Bob Dylan Live 1962-1966 - Rare Performances from the Copyright Collections traz o alvorecer da vida de um artista em uma nova perspectiva, apesar da celebridade das canções que toca, amplamente conhecidas.
A abordagem de cavaleiro solitário, de folk singer em luta convicta contra as adversidades do mundo, volta a fazer sentido em 2018, e Bob Dylan parece o mais aparelhado para o combate com seu disco de andarilho do folk que subitamente se agiganta como um profeta da revolução permanente.
A maior parte das performances só tinha sido disponibilizada anteriormente numa edição limitadíssima chamada 50th Anniversary Collection/Copyright Extension, três discos lançados em 2012, 2013 e 2014 com registros raros de Dylan.
São gravações históricas, especialmente as que foram apresentadas no café Gerde’s Folk City, uma casa da era hippie que agitou o West Village, em Nova York, propriedade de uma figura chamada Mike Porco (o clube fechou em 1987, mas ajudou a projetar de Dylan ao Sonic Youth).
Don’t Think Twice, It’s Alright, uma das mais conhecidas pedras de toque do repertório dylanesco, ressurge como se ele a estivesse inventando de novo, em uma gravação de 12 de abril de 1963, no Town Hall de New York City. To Ramona, gravada durante um show no Newport Folk Festival, em Rhode Island, em 1964, parece já projetar a eletrificação de Dylan.
O segundo disco, que registra sua entronização no Reino Unido, é a confirmação dessa rebelião. Quando sua banda entra em cena no Hollywood Bowl, em setembro de 1965, com Maggie’s Farm, sob a batida demolidora do baterista Levon Helm e as digressões de Robertson, já parecia evidente que nada mais seria a mesma coisa dali por diante.
Na faixa seguinte, It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry, ele já está de novo no Newport Folk Festival, desafiando os fiéis. Dylan estava em chamas, e incendiaria o século XX atrás de si, chegando a todo o globo, alcançando até os nossos Belchior e Renato Russo alguns anos depois. 
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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