sábado, 11 de agosto de 2018

Os 40 anos de "Que país é este?"

Nascida na ditadura militar, a letra de Renato Russo agora reflete a indignação com o mau funcionamento das instituições da democracia brasileira
Da Deutsche Welle 
Primeiramente executada durante festas em Brasília com a banda Aborto Elétrico, a música foi lançada em 1987 e gravada pela Legião Urbana/Reprodução/Vimeo/Acústico MTV
Por Ivy Farias

Três acordes e uma frase dita por um senador na tribuna. Foi assim que, em 1978, Renato Manfredini Junior, mais conhecido como Renato Russo, escreveu os versos de Que País É Este?. Primeiramente executada durante festas em Brasília com a banda Aborto Elétrico, a música foi lançada em 1987, já na época da Assembleia Constituinte e gravada pela banda Legião Urbana.
Nos quarenta anos desde sua criação, a letra – que abordava o desrespeito à Constituição, o descaso com as terras indígenas e problemas sociais, como violência e miséria – sobreviveu à ditadura militar e ganhou novo contexto.
A partir de 2013, ela passou a ser usada em protestos, chegando a ser dedicada ao presidente Michel Temer pelo cantor Dinho Ouro Preto durante uma apresentação no Rock in Rio no ano passado, acompanhada de um "Fora Temer".
"Ninguém respeita a Constituição/Mas todos acreditam no futuro da nação", dizem os versos de Renato Russo. Embora a Constituição a que Que País é Este? se refere não seja a que está em vigor, a atual também não é completamente
respeitada, afirma Cássio Casagrande, professor de direito constitucional da Universidade Federal Fluminense (UFF). 
"A Constituição tem sido cumprida em certos aspectos, como as eleições regulares e o funcionamento do Congresso. Mas, em outros, como os direitos civis – um exemplo é a violência policial – e sociais, como os trabalhistas, não".
Ele acredita que a letra escrita por alguém tão jovem continua sendo tão popular porque o Brasil "ainda é adolescente". "As instituições não amadureceram. O Brasil é um país imaturo, adolescente, pois nunca tivemos um longo período de estabilidade política. Não temos uma cultura democrática e liberal", afirma.
"Ainda há uma distância muito grande entre o mundo da Constituição e o mundo real. Temos uma crise de identidade típica da adolescência quando debatemos os modelos de voto distrital, de financiamento político", exemplifica.
Casagrande salienta que a dificuldade do respeito à Constituição se deve em parte ao modelo federativo. "Copiamos tortuosamente o modelo americano, mas o concebemos de uma forma centralizadora, que não permite verdadeira autonomia às diferentes regiões do Brasil", afirma.
Versos de indignação
Bruce Gomlevsky é músico, ator e produtor de Renato Russo – O Musical, há 12 anos em cartaz. Ele canta Que País É Este? no espetáculo e conta que novas gerações vão ao teatro e sempre cantam junto o refrão.
"Renato tinha medo de a música ficar obsoleta, por isso a gravou apenas em seu terceiro disco", comenta. "Infelizmente, ela continua sendo um fiel reflexo da realidade, e as pessoas cantam com indignação. Eu tenho uma profunda tristeza em pensar que ele escreveu contra os militares e hoje tem gente pedindo a volta da ditadura. Com certeza, Renato estaria defendendo as vias democráticas."
A popularidade da letra de Renato Russo faz com que a canção seja cantada ignorando o contexto. O professor de Literatura da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL), Nilton Resende, defende a ideia de que as apropriações de Que País é Este? não se dão por conta do ritmo, mas sim da letra, que reflete indignação.
"Os versos são quase ingênuos. Questionam, apontam para a corrupção. E todos podemos perguntar que tipo de país somos quando alguma coisa nos indigna", pontua. "É uma letra quase moralizante, como tantos discursos que vemos hoje em dia."
Brasil na periferia do mundo
Para especialistas, passadas quatro décadas desde que Renato Russo escreveu Que País é Este?, o Brasil continua sendo visto da mesma forma no cenário internacional: periferia.
"O Brasil, para os países do que então se chamava primeiro mundo, era mais visto como um arremedo de Estado, uma República das Bananas, não apenas em termos de força e capacidade de influenciar o sistema, mas grandemente em função de sua estrutura e seus objetivos, um lugar onde não existe o Estado de Direito", afirma Elaini Gonzaga, professora de relações internacionais da PUC-SP.
Para ela, nem mesmo os avanços econômicos que levaram o país a ser considerado a sexta maior economia do mundo durante os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva modificaram a visão do Brasil no exterior.
"Chegou-se a cogitar se teríamos passado a ser uma semiperiferia, uma potência emergente, mas a mudança drástica do perfil nos últimos anos do governo Dilma Rousseff, já coagido por forças opositoras, e pós-impeachment, mostra que não foi suficiente" afirma Gonzaga. 
"O Brasil volta a passos largos ao que foi. Agora, isso ocorreu em grande medida, porque existem forças internas relevantes muito confortáveis no papel de colônia e de subdesenvolvido, explorando mão de obra barata e precarizada, produtiva ou financeiramente", completa.
Questão indígena avança a passos lentos
A estrofe antes do último refrão trata também da questão indígena: "Mas o Brasil vai ficar rico /
Vamos faturar um milhão / Quando vendermos todas as almas / Dos nossos índios num leilão".
Para o procurador da República Edilson Vitorelli, houve avanços com a Constituição de 1988, tanto por reconhecer aos indígenas costumes, línguas, tradições e direitos originários sobre as terras, como por atribuir ao Ministério Público Federal a tutela sobre esses direitos. Por outro lado, houve retrocessos desde então, como as desapropriações de terras indígenas.
Vitorelli, que é autor do Estatuto do Índio, visitou todos os povos indígenas de Minas Gerais durante três anos como procurador. De todos os grandes problemas que acometem essa população, ele aponta a saúde como mais latente. "São graves situações como alcoolismo, diabetes, saúde bucal", aponta.
"O Bolsa Família, por mais contraditório que possa parecer, passou a fazer mal para eles, que eram um povo sem uma cultura de monetização. Com os valores, tiveram acesso a coisas que antes nunca tiveram, como doces. Cheguei a ver índio comendo açúcar de colher. Eu vi também muito lixo, porque todo esse material novo não é corretamente descartado, muito menos reciclado", exemplifica.
No entanto, o procurador vê esperança de avanços. "Mesmo com tanto retrocesso, sou otimista: apesar de a situação ser muito ruim, era pior há dez anos, há 20, há 30 e há 40 anos, quando foi escrita a música. Estamos melhorando, mas pouco", diz.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são de responsabilidade de seus autores, e não refletem, de maneira nenhuma, a opinião do redator deste portal.