segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Parnaíba como é

Foi tentar a vida, em Parnaíba, no Piauí, um rapazelho semi-analfabeto e que jamais houvera visto uma vila ou cidade.
Por *Leonardo Mota

Dias depois, escrevia ele à sua genitora uma carta de que copio, em seguida, vários tópicos, respeitando-lhes a íntegra, mas corrigindo um tanto a respectiva ortografia para mais fácil entendimento do leitor. 
--- “Mamãe, Parnaíba é uma cidade monarca de grande”. Demanhãsinha se alvoroça tanta gente na beira do rio que parece formiga arredó de lagartixa morta e quase tudo é trabaiadô caçando ganho. O Mercado é outro despotismo: se arreúne mais povo do que na desobriga, quando o padre diz missa na Capela dos Morros, da dona Chiquinha. Tudo se vende; de tudo se faz dinheiro: fiquei besta de espiar gente comprando maxixe, quiabo, limão azedo, folha de joão- gome e inté taiada de girmun. O passadio daqui é bom. Todo dia eu como pão da cidade com manteiga do Reino. 
Mamãe, as coisa aqui são muito deferente e adversa daí. As casa são agregada umas nas outra que nem casa de maribondo de parede e é quase tudo de telha e atijolada e tem umas delas calçada e forrada de tauba por riba que nem gaiola de xexéu e que chama sobrado. Gente rica aqui é em demasia. Inda onte numa loja eu vi uma ruma de dinheiro de cobre no chão que parecia juá, quando se
ajunta mode dá pra bode em chiqueiro. 
Mamãe, a Igreja faz inté sobrôço, de grande e alta. Cabe dentro dela todos os morador de Barra das Lage, do Bom Princípio, da Fazenda Nova e ainda se adquere lugar para mais de cem vivente. O povo daqui tem um cestro muito engraçado: não diz “ô de casa”, não! Quando chegam nas casa alêia, batem palma como quem estuma cachorro mode acuar tatu em buraco. 
Mamãe, a luz daqui é feita num tal de gazome; não precisa pavio nem trocida de algodão mode acender: é só distorcer uma torneira como quem tira cachaça de ancoreta e riscar um fósco que a luz acende biatamente e tão culara que faz é gosto! Se o cristão não acender mais que depressa, espaia um cheiro de cebola podre danado, diz que pru via de um tal de carboreto. 
Mamãe, aqui tem um jogo chamado biá que não hái diabo que entenda, mas porém só joga nele gente de famía: é arredó duma mesa grande, forrada cum pano, como baú de pregaria, e os jogador segurando umas vara mode empurrar uma bola que é ver ôvo de ema. Quando estão jogando, dê por visto dois mexedor de farinha num fôrno de barro, ajeitando o rodo, mode não desmanchar os beiju. 
Mamãe, aqui tem também um latejo invisive que é um tal de cinema. É só a musga tocar, aparece umas figura de gente, de animal e de rua, tudo perfeito, mesminho como se estivesse vivo e bolindo. O cinema é um pano esticado, parecido com vela de embarcação e é a coisa mais bonita e mais encantada que eu já vi. 
Mamãe cheguei onte da Tutoia. Fui nas barcas da Companhia Busse mode trabaiá num vapor inguilês, ganhando dois minréis por dia e quatro por noite. Na Tutoia a gente vê o mar inté onde ele encosta nas parede do Céu. As barca sacode a gente chega faz dor de istambo e vontade de gumitar que nem urubu novo, tudo isso pru via do desassossego do mar. O vapor inguilês é um paidégua de grande, maior do que a vazante de fumo do compadre Domingo Prêto e mais alto que o pé de tamarina da porta lá de casa. Os porão de botar carga são tão fundo que escurece a vista do cristão que espia. O pessoal que mora no vapor são tudo branco rosalgá, ôio azul e cabelo vermelho. A fala deles só pro diabo, não hái quem entenda: é uma embruiada como de priquito em roça de mio novo. São danado por papagaio e por cachaça; dão inté roupa de gazimira novinha por um papagaio ou por uma garrafa de geribita. Quando os inguilês fala uns cos outros é uma trapaiada direitinha a de tia Damiana, adispois que teve a moléstia do ar. Outra coisa engraçada que eu acho é os inguilês do vapor tudo se chamar piloto: mode coisa que os Padres da terra dêles não batisam ninguém com outro nome. 
Mamãe, preu lhe contar tudo direitamente não hái papel que chegue. Vou acabar porque já me dói as boneca dos dedo de eu tanto escrever”. 
*Este --- belo texto da nossa literatura, que tão fielmente retrata a importância exercida por Parnaíba na região, durante o apogeu do seu “Entreposto Comercial, Importador e Exportador” foi adrede pinçado do livro “Sertão Alegre” -- Poesia e Linguagem do Sertão Nordestino --- editado em primeira edição em 1928 pelo escritor sertanista cearense “Leonardo Mota” (1891 – 1948). 
Edição: Mário Pires Santana 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são de responsabilidade de seus autores, e não refletem, de maneira nenhuma, a opinião do redator deste portal.