sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Por que voto contra Bolsonaro

Nesta eleição, minha escolha não será a favor de um candidato, mas contrária ao capitão
Por *Roberto Carlos Modesto 
Bolsonaro vai se manter firme na disputa?/Wilson Dias/Agência Brasil
Sempre fui um eleitor ideológico e programático, buscando o equilíbrio entre esses fatores, que tinha como regra votar, em primeiro lugar, a favor e não contra um candidato ou partido, como fazem os direitistas em relação a Lula e ao PT.
Mas as coisas tem mudado. Nos tempos que correm, sinto que estou regredindo, igualando-me a eles, às avessas. Acho que sou afetado pelo contexto regional.
O interior do Paraná, do agronegócio, é zona eleitoral conservadora, em rápida transição para conservadora extremada. Alguns que supunha inteligentes tem declarado voto em Jair Bolsonaro. Vejo o sinal amarelo. Diante disso, só tenho uma certeza em relação ao meu voto no primeiro e segundo turnos da eleição presidencial em outubro: será contra o capitão Bolsonaro.
Provavelmente a culpa não é só minha. O Brasil também regrediu. Não consigo compreender como uma candidatura que ofendeu e ofende negros, mulheres, indígenas, homossexuais e a resistência ao regime militar tem vez e tem voz.
Qual a alternativa viável que essa candidatura oferece? Será que são apenas homens brancos que catapultam essa ameaça política? Não pode ser. Mas os que me declararam o voto pertencem a essa categoria, uns mais, outros menos jovens, que frequentaram faculdade, com uma característica em comum quando a discussão entra no terreno político: uma terrível e profunda ignorância histórica em geral, e da história brasileira em particular.
Lembrá-los dos infortúnios do voluntarismo da era Collor, da falta de bases partidária e social, da retórica da caça aos marajás, é tão distante quanto referir-se ao sistema político do tempo do Império.
Que dirá lembrá-los dos malefícios ao País do moralismo vassoureiro de Jânio Quadros que, eleito, tentou aplicar no Congresso o golpe da renúncia. Evento que deslanchou a crise institucional do período Jango e jogou o Brasil sob os coturnos da ditadura em 1964.
Não tem clima para diálogo. Os eleitores da criatura acreditam que ele acabará com os direitos humanos, fuzilará os corruptos e os bandidos, colocará os civis sob a autoridade dos militares. Um interlocutor, menos militarista, me diz que se Bolsonaro encontrar resistência no Legislativo deve recorrer diretamente às ruas.
Como assim, companheiro? Estaria eu diante de um bolivariano? E o terror de que Lula e Dilma transformassem o Brasil numa gigantesca Venezuela ou Cuba? Cadê o discurso do Estado de direito?
Tenho receio que se ocorrer o cenário que o meu interlocutor imagina pode não faltar apoio para uma intervenção militar, como a que foi pedida na greve dos caminhoneiros, tão logo a falta de bom senso e de racionalidade topem com as dificuldades do processo político.
A serpente choca seus ovos, mas tem muita gente que não leva o fenômeno a sério. Primeiro achavam que o capitão seria rapidamente varrido das primeiras posições das pesquisas, agora acham que não chega ao segundo turno e, se chegar, não ganha.
Quem duvida é doido. Bolsonaro é um aventureiro oportunista. A sua alegada ignorância de economia, saúde, educação é só mais uma forma de não se responsabilizar por nada, nem pelo que veio nem pelo que virá.
A exemplo de seus seguidores, ele não gosta de política, apesar de viver dela, assim como sua família. É menos ameaçadora a criatura porque o fenômeno do extremismo conservador é mundial? Porque finalmente temos uma direita que mostra a cara (a sua pior cara), pela via eleitoral?
Estava e estou pronto para votar no Ciro Gomes, mas entendo que a hegemonia lulopetista colocou correntes nas pernas do meu candidato. Se Ciro sucumbir, seja Fernando Haddad (mesmo com todos os sinais de continuidade da instabilidade institucional), seja Marina Silva (mesmo com a falta de um discurso coerente), seja Geraldo Alckmin (mesmo com a sua utopia regressiva, rumo à Primeira República ou Temer II – uma temporada completa), terá o meu voto.
Muito embora ainda não tenha deixado de ser do contraditório, agora também chegou o momento de ser do contra. Um pouco de pragmatismo, na hora certa, se não pode fazer o bem, pode evitar o mal. 
*“Sócio” desde 2009
Fonte: Blog do Sócio/CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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