quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A universidade na encruzilhada

A revisão premente do “contrato” entre a sociedade e a academia enseja grandes mudanças e desafios.
Por Thomaz Wood Jr. 
Fachada da reitoria da USP/USP Imagens
Friedrich Wilhelm Christian Karl Ferdinand von Humboldt (1767-1835) foi filósofo, diplomata e deixou forte marca na área da educação. O notável prussiano acreditava que a base e o fim de qualquer sistema educacional eram a formação de cidadãos. Humboldt defendia a combinação entre ensino e pesquisa, ciência e artes. Em ensaio publicado no início do século XIX, argumentou que o Estado não deveria demandar das universidades nada diretamente relacionado a ele: somente a autonomia permitiria às universidades atingir seus mais altos propósitos.
Na metade do século XX, o engenheiro e inventor americano Vannevar Bush (1890-1974) ajudou a moldar o que entendemos como ciência e a definir o seu papel na sociedade. Em um célebre texto publicado em 1945 – “Science, The Endless Frontier” –, Bush defendeu que o progresso científico é resultado da interação livre de intelectos livres: cientistas trabalhando em temas de sua escolha, definidos a partir de sua curiosidade para explorar o desconhecido e avançar as fronteiras da ciência. As ideias de Humboldt e Bush tornaram-se pressupostos frequentemente tomados como verdades, validados pelo
gigantesco progresso científico experimentado no século XX. Seus conceitos basilares, a autonomia universitária e a liberdade criativa para os cientistas, estão nas fundações que sustentaram a institucionalização de sistemas de educação superior em muitos países.
Com o acelerado desenvolvimento da ciência, cresceram os programas de pós-graduação, as associações acadêmicas, as agências de financiamento, os eventos e os periódicos científicos. Cresceram também os orçamentos e os investimentos.
De fato, nunca faltaram justificativas para ainda maiores orçamentos e investimentos: mais dinheiro produz mais pesquisa, que gera mais conhecimento, que leva a mais patentes que produzem inovações, que impulsionam novos produtos e riqueza.
No fim do século XX, a ciência já era um campo institucionalizado, globalizado, super-especializado e, em diversas áreas de conhecimento, maduro. E a evolução continuava e continua firme e forte em novas áreas de conhecimento e em domínios transdisciplinares.
No entanto, no imenso céu azul começaram a aparecer algumas nuvens ameaçadoras. A expansão sem fronteiras começou a enfrentar restrições orçamentárias. A liberdade para criar começou a ser contraposta a necessidades sociais e econômicas, imperativos já antecipados por Bush.
Novas políticas de Estado começaram a privilegiar uma visão de ciência orientada para a competitividade. Sofisticados sistemas de avaliação passaram a controlar o trabalho e a produção dos cientistas: de início, publicações científicas, em alguns países, o impacto real das pesquisas sobre a economia e a sociedade. Sorte das ciências tecnológicas, azar das ciências humanas.
A academia reagiu. Afinal, dois séculos de Humboldt estavam fortemente arraigados nos sistemas, práticas e cultura vigentes. Surgiram críticas à comercialização da ciência e à mcdonaldização das universidades. Por todo canto, descontentes manifestaram-se contra o culto da performance e de indicadores de produção. Nos trópicos, reino dos espelhos invertidos, reformadores passaram a enfrentar improdutivas hordas acadêmicas, habilidosas no uso de pirotecnias retóricas para defender interesses próprios.
Em texto publicado em 2017 pela revista Social Research: An International Quarterly, Wolfgang Rohe sugere que o pêndulo entre a defesa da autonomia e o imperativo de servir à sociedade está se movendo para a segunda base.
De fato, se a ciência tem influenciado tanto a sociedade, por que a sociedade não poderia direcionar a ciência, definindo prioridades? Afinal, conforme observou o Nobel Manfred Eigen há 30 anos, será justo continuar financiando a diversão privada de uma pequena casta privilegiada com dinheiro público?
O surgimento, a partir dos anos 1980, do conceito de grandes desafios – problemas complexos que afetam a sociedade e frequentemente demandam tratamento transdisciplinar, tais como a pobreza, a fome e a desigualdade – deu nome às prioridades. Resta explorar o engajamento direto entre a ciência e o mundo real e aprender a lidar com as contradições que esta aproximação enseja. O maior tributo a Humboldt e Bush é atualizar sistemas e práticas, conservando a essência de seus valores.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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