quinta-feira, 20 de setembro de 2018

As aparências enganam

Por Laicrogos Negromonte  

Luísa Amélia, senhora de fino trato, sofisticada ao extremo, estava sentada no banco do passageiro, enquanto esperava o marido retornar das compras. À meia distância, viu passar um conhecido na praça onde o carro estava estacionado e, subitamente, pensou de si para si: “nossa, uma pessoa com tantos predicados, eu imaginei que poderia ser outra coisa na vida, mas ele tomou uma direção que não condiz com sua natureza. O que ele faz e o que ele fez no passado recente, não passa de um trabalho grosseiro, tosco, mais que isso, indigno. Nunca imaginei que alguém nascido em berço de ouro, com pais tão educados, de família tradicional, fosse andar para trás que nem caranguejo. Não, isso não! Olha só para o traje que ele anda: camisa de brim, amassada e suja, parecida com a de um gari; calça jeans esgaçada; sapatos sem meias, surrados; e boné de vendedor de picolé. Misericórdia! Sem falar da mulher negra com quem sequer casou, pois vive amancebado. Ô negra feia! Cabelo ruim, tudo ruim. Mas como pode? Ouvi falar que ela mal sabe ler e escrever. Imagine quando nascerem os filhos... Que horror! Repara como ele anda olhando para o chão, puxando aquele carrinho. Ainda bem que os pneus são de bicicleta, não tão pesados quanto os de um carro. Coitado! O que será que ele pensa da vida? Parece ser um jovem triste, sem futuro, sem esperança de dias melhores. Com certeza, está arrependido de ter largado os estudos, por não ouvir os conselhos
da família. Seu mundo, imagino, deve ser muito pequeno... Quem sabe das dificuldades desse cristão? E as contas de água, de luz e do aluguel, como paga? Desse jeito, comida boa nem pensar. Restaurante muito menos. Ah, se eu pudesse penetrar em seus pensamentos e descobrir como ele avalia a vida?! Não acredito que essa pobre alma seja feliz. Meu Deus! Ele me viu e está vindo em minha direção. Ainda bem que o desventurado não é capaz de adivinhar meus pensamentos” 
- Bom dia, dona Luísa Amélia. Tudo em paz com a senhora? 
- Tudo bem. E você, Roberto? 
- Uma maravilha! Tenho notícias excelentes. Sabe aquele sítio que era do papai? Ficou de herança para mim. Cultivo e comercializo rosas. O carrinho está cheio, veja. Vendo todo este estoque numa manhã. Não chega para quem quer! Se a senhora desejar faço-lhe um lindo buquê. 
- Vou querer, prepare um caprichado para mim. 
Dona Luísa Amélia ficou muito admirada. Os olhos de Roberto brilhavam. De tez rosada, sua presença inspirava otimismo e saúde de corpo e de espírito. 
Tendo o lindo ramalhete nas mãos, gesticulou suavemente com a cabeça e disse: 
-Não precisa pagar, é um presente para a senhora. 
- Oh, meu filho, você é muito gentil! 
Ao se despedir, olhando docemente em seus olhos, Roberto fez questão de confidenciar: 
- Aqui para nós dois, dona Luísa Amélia, nunca fui tão feliz ao longo de toda a minha vida. É como nos ensina o dito popular: “melhor do que isso estraga”. 
Edição: Mário Pires Santana

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