domingo, 2 de setembro de 2018

Cultura: Jards Macalé na cadeia

O pacote de raridades ao vivo do selo Discobertas contempla a gravação de um show do artista carioca para os presidiários da Papuda, há 40 anos
Por Pedro Alexandre Sanches 
Macalé fazia um jogo de gato e rato com a Tropicália/Foto/Reprodução
O carioca Jards Macalé, hoje com 75 anos, tem sido sempre um emepebista dissidente que se utiliza do samba de raiz para brincar de gato e rato com a Tropicália, da qual foi personagem controverso, fincado menos na boca de cena do que nos bastidores (não foi creditado, mas produziu Transa, o disco da volta de Caetano Veloso do exílio, em 1972).
Na caixa Ao Vivo!, o selo Discobertas descobre, em cinco CDs, as trilhas sonoras inéditas de três shows de Macalé em 1977, 1978 e 1981, além de reeditar Let's Play That, apresentação com o percussionista pernambucano Naná Vasconcelos, registrada em 1983 e lançada originalmente em 1994.
O momento mais luminoso é a gravação do show perturbador de 1977, que reproduzia e amplificava o intrincado álbum Contrastes, num balé torto de temas de Ismael Silva (o samba-título), Haroldo Lobo, Bertolt Brecht, Fats Waller, Walter Franco e do parceiro Wally Salomão.
A versão ao vivo é acrescida de registros de canções de Ary Barroso (Por Causa Desta Cabocla), Moreira da Silva (Choro Esdrúxulo, Olha o Padilha), Gilberto Gil (a terna Pai e Mãe), Paulinho da Viola (Vela no Breu), e tem participação especial do cearense Raimundo Fagner, em Soluços (de Macalé).
No Contrastes ao Vivo, o cantor e compositor comenta como “dádiva” o hábito de se apresentar em sanatórios e presídios (como o de Bangu). “Ué, qual é a diferença, menino, da gente estar preso do lado de fora?”, pergunta, ecoando mais o Brasil de 2018 que o de 1977.
O volume seguinte é Jards Macalé Canta no Presídio, registrado na Papuda em 1978, em que presenteia os detentos com sambas de trabalho e de “vagabundagem” de Geraldo Pereira, Moreira da Silva (Vara Criminal), Lupicinio Rodrigues e Billy Blanco.
O derradeiro volume, A Volta para Vitória, acompanha um show com sabor histórico na capital capixaba, em 1981: três anos antes, Macalé fora preso ali depois de um show com o mestre Moreira da Silva, por ter cantado uma sátira a Magalhães Pinto, um pretenso candidato civil à sucessão presidencial militar.
Casca de Ovo dizia: Será que esse pinto sobe?/ será que esse pinto desce?/ será que esse pinto murcha?/ ou será que esse pinto cresce? Macalé conta a história em dez saborosos minutos de prosa, mas sem desnudar as sutilezas políticas da prisão nem cantar Casca de Ovo. Em 2018, não há nenhum artista brasileiro encarcerado por se opor ao regime.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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