domingo, 2 de setembro de 2018

É impossível tirar Lula da campanha

POR *ALEX SOLNIK
Ninguém contava com a minha astúcia, pensou o ministro Luís Roberto Barroso ao desrespeitar prazos e enterrar a candidatura Lula antes que se esperava. Como eu sou esperto! Mas bastaram dois dias para constatar que os efeitos da impugnação são nulos. Candidato ou não, Lula não saiu da campanha. Nem vai sair. Candidato ou não, vai eleger, de dentro da cela, governadores, deputados, senadores e o próximo presidente do Brasil.
Fernando Henrique chamou Lula, em entrevista de hoje à Folha de "Padim Ciço" ou Padre Cícero, figura mitológica do Nordeste brasileiro a quem foram atribuídos milagres e a quem o povo venerava como santo. Ele tem razão em parte.
Lula é Padre Cícero, mas não só. É Padre Cícero mais Tiradentes mais Getúlio Vargas. Por isso é tão difícil derrotá-lo. Ele é três em um.
Barroso chegou tarde demais. Apesar da interdição a campanha já está nas ruas do Brasil e Lula está por toda parte. Ninguém vai conseguir arrancar seu nome de todas as propagandas espalhadas através do país.
Proibir Lula vai aguçar ainda mais a curiosidade em torno dele. É como proibir drogas. Chamam mais atenção do que se fossem permitidas. Lula em liberdade não é tão impactante quanto preso. Principalmente porque seu crime ninguém viu. Diferente seria se ele tivesse matado alguém e houvesse um cadáver. O "crime" atribuído a Lula não o tem.
Por isso não grudou nele o carimbo de criminoso ou bandido, por mais barulho que façam seus detratores.
É espantoso verificar que pessoas que estudaram tanto, como Barroso, não aprenderam nada com a história. Não percebem que Lula preso e impugnado tem mais poder que livre e candidato.
Se Tiradentes não fosse enforcado e esquartejado viraria símbolo da liberdade e feriado nacional ainda hoje? Se o tivessem deixado em paz alguém ainda se lembraria dele?
Cada movimento e cada ação que se destinam a enfraquecer Lula só o fortalecem. Quanto mais injustiças contra ele, mais as pessoas simples, as mesmas que amam Padre Cícero formarão fileiras em sua defesa. Falta pouco para virar mártir.
Pode até não ser o próximo presidente, mas periga se transformar num símbolo da liberdade tão forte quanto Tiradentes pelos próximos 200 anos.
*Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos".
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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