domingo, 16 de setembro de 2018

Entrevista I Roberto Requião: "Não é hora da covardia nem da temeridade de avançar demais"

Estranhamente filiado ao MDB, o ex-governador do Paraná tornou-se voz importante a denunciar o golpe e a exigir Lula livre, aproximando-se mais do PT.
Por Fred Melo Paiva 
"Como homem de esquerda, acho que estamos divididos demais"/Valter Canpanato/Agência Brasil
O senador Roberto Requião é “progressista e de esquerda desde sempre”. Se considerarmos a genética revolucionária, precisamente desde 1890, quando seu bisavô fundou o Partido Operário com uma plataforma que defendia a reforma agrária e a limitação do direito à herança. Mais tarde, o avô criou sindicatos e organizou greves. O tio ajudou a tomar o Espírito Santo a favor de Getúlio Vargas.
Estranhamente filiado ao MDB, o ex-governador do Paraná, de 77 anos, tornou-se voz importante a denunciar o golpe e a exigir Lula livre. Aproximou-se mais ainda do PT e dividiu palanque com Guilherme Boulos, mesmo considerando o PSOL uma “UDN da esquerda”.
Líder nas pesquisas para o Senado Federal no Paraná, ouviu de Lula em certa visita à cadeia: “Requião, você é que deveria ser candidato a presidente. Tem hoje o respeito da esquerda e da direita, e não está envolvido em nenhum desses casos de corrupção”.
De fato ameaçou apresentar a pré-candidatura presidencial na convenção do partido, mas demoveu-se logo da ideia. O MDB escolheu Henrique Meirelles, a quem considera “um gerentão de banco completamente equivocado”, que “passou a vida vendendo cartão de crédito e seguro”. Sobre a possibilidade de oferecer palanque ao colega, gargalha.
“Um dos poucos gramscianos sobreviventes”, o ataque ao neoliberalismo está para a conversa de Requião assim como a Renda Mínima está para o discurso de Eduardo Suplicy, outro líder para uma vaga ao Senado, esta por São Paulo. À parte a obsessiva relação de ambos com seus temas de predileção, o tempo acabou por provar que tinham toda a razão.
Para falar sobre neoliberalismo, Lula, Bolsonaro, Ciro, Boulos, Temer, Hitler e De Gaulle, concedeu a CartaCapital a seguinte entrevista:
Carta Capital: Como o senhor avalia os movimentos da esquerda neste período pré-eleitoral?
Roberto Requião: A esquerda é o amor e a fraternidade, e a direita é o individualismo e o egoísmo. Como homem de esquerda, acho que estamos divididos demais. O fundamental seria termos um projeto soberano que pudesse ser abraçado por toda a oposição. Uma candidatura única para derrotar o neoliberalismo econômico e os interesses geopolíticos de outros países. Mas não é o que se vê.
CC: O senhor trabalhou na costura de uma aliança entre Ciro Gomes e o PT?
RR: Sim, mas tudo isso acabou impedido por idiossincrasias pessoais. Hoje, o que tínhamos de fazer era abrir mão dos objetivos específicos, somar no enfrentamento e chegar ao poder com o projeto possível, o ato eficiente. Por ambições pessoais e burrice histórica, nada disso está acontecendo.
CC: Por culpa do temperamento do Ciro, da figura preponderante do Lula, ou de uma certa arrogância do PT?
RR: Não quero atribuir isso especificamente a ninguém. Digamos que ao conjunto todo. Quando os nazistas invadiram a França, De Gaulle associou-se às quadrilhas de contrabandistas de fronteira, que acabaram conhecidos na história como heróis dos partisans, porque se somaram na resistência, tinham coragem e iniciativa, e estavam armados. Eu queria a unidade do Brasil em torno de um projeto. Deixar de lado os pequenos pecados e reconstruir um país.
CC: Os golpistas tampouco conseguiram a unidade para viabilizar uma candidatura forte. Por quê?
RR: Porque o neoliberalismo é um zumbi que fracassou, um morto-vivo que pediu asilo no Brasil, mas que nesses dois anos já demonstrou sua inviabilidade completa. Na Europa, a Espanha tem uma dificuldade brutal de consolidar um governo, a Grécia foi destruída, a Inglaterra abandona a União Europeia. Aqui, esse morto-vivo também fracassa e a contrariedade do povo consolida-se cada vez mais. Isso, ao lado das qualidades pessoais do Lula, do seu carisma, vai impedindo completamente as candidaturas da direita, que arquitetaram e realizaram o golpe.
CC: O senhor diria que Bolsonaro acabou tomando de assalto a candidatura de direita?
RR: Não. Bolsonaro foi promovido por essa mesma direita. É um sujeito medíocre, no sentido de uma inteligência mediana, mas ambicioso e sem nenhum espírito público. Um oportunista singular de terceira categoria, promovido pelos interesses golpistas a quem serviu e foi útil. Agora será destruído pelos mesmos grupos que o construíram.
CC: Até pouco tempo Bolsonaro configurava uma piada – de mau gosto, mas piada. O que deu no Brasil para fazer dessa figura um sério candidato?
RR: Os erros na condução do país pelos seus atuais dirigentes. Hitler era uma piada na Alemanha. Basta ouvir um discurso dele para saber que se tratava de um boçal absoluto. Se ler Mein Kampf, chegará à mesma conclusão. Mas, diante do fracasso da condução econômica, acaba virando uma alternativa. Hitler era um Cacareco da época, um protesto “contra tudo isso que está aí”. E quando assume se transforma no que realmente era, um bárbaro. Bolsonaro é isso.
CC: Como seria um governo Bolsonaro?
RR: Um governo de três meses. Ele não teria nenhuma condição de conduzir o País. Mesmo esse neoudenismo que se instalou no Judiciário não é tão imbecil quanto suas teses.
CC: O senhor apoiará a candidatura petista, vai de Boulos, Ciro, ou seguirá as ordens do partido abraçando Meirelles?
RR: [Gargalha] Vou apoiar todos os candidatos de oposição. E espero que não se atritem muito neste primeiro turno, porque, havendo um segundo, precisaremos da nacionalidade das pessoas sérias. Eu me alio àqueles que se propuserem a um referendo revogatório de todas essas barbaridades do neoliberalismo econômico.
CC: E o Meirelles?
RR: É um gerentão de banco completamente equivocado. Passou a vida vendendo cartão de crédito e seguro, a serviço do capital financeiro, e provavelmente acredita nisso. Assim foi eficiente e ficou rico. Mas o seu projeto econômico da Ponte para o Futuro, que propôs a serviço dos bancos, é um fracasso absoluto.
CC: Alckmin pode virar o jogo e chegar ao segundo turno?
RR: Haverá um esforço brutal em torno do Alckmin, um cara simpático que não considero esse picolé de chuchu. O problema dele é que 98% são contra o modelo que aí está, e o povo já entendeu que Alckmin, Temer, Meirelles, o interesse geopolítico americano, o neoliberalismo, tudo isso é a mesma coisa. Do ponto de vista eleitoral, não tem mais nenhuma chance. E isso me assusta, porque, no desespero, podem até tentar evitar a eleição. Isso já está expresso no ridículo de se manter Lula preso. Tratados internacionais que foram propostos pelo Executivo e aprovados pela Câmara e Senado estão sendo descumpridos. Estão revogando a Câmara e o Senado?
CC: O que acha da estratégia de manter Lula candidato mesmo preso e certamente fora da disputa?
RR: Totalmente correta. Lula sintetiza hoje todo o sentimento de oposição às medidas tomadas pelo capital financeiro. Se tivessem lançado outro candidato, teria desaparecido essa polarização da figura do Lula e o PT estaria acabado. Na esfera das organizações estaduais, teriam se preocupado com o mandato de seus parlamentares e se aliado à direita, como de resto o partido vem fazendo há tempos.
CC: Aprova a indicação de Haddad, caso Lula seja impedido? 
RR: Haddad foi um bom ministro, mas um prefeito medíocre. Esqueceu que tinha povo em São Paulo. Foi um Jaime Lerner paulista com menos brilho que o Jaime Lerner. Recebeu prêmios em Paris e perdeu a eleição em 100% das urnas. Agora, se for ele o instrumento de mudança, é por aí que temos de ir. O momento não é da covardia de não avançar, nem da temeridade de avançar demais – é o ato meio, eficiente. Tomar a colina, manter posição, e a partir daí revogar tudo e retomar o Brasil. Disse o Fernando Henrique que o próximo governo seria provisório. Sim! O Haddad pode ser um (Héctor) Campora (presidente argentino que governou entre maio e julho de 1973, abrindo caminho para a eleição de Juan Domingo Perón, antes impedido de concorrer): assume, solta o Lula, abre o Brasil para o reencontro com seu processo civilizatório. Agora, o Haddad é uma formação uspiana, né... Meio FHC.
CC: Haddad é meio tucano?
RR: Uspiano. Mas está dentro de um contexto partidário, de um sentimento petista intrinsecamente ligado ao trabalho. Um governo Haddad seria subordinado a esse sentimento, apesar da síndrome uspiana. O que falta, porém, é o grande projeto. Vi o programa do PT e ele não coloca em primeiro plano o fundamental, que é a soberania brasileira, o processo civilizatório, a revogação imediata da entrega do pré-sal. Muitas páginas e muita conversa mole.
CC: Talvez o projeto que mais se aproxime do que o senhor pensa seja o do Boulos.
RR: Boulos tem sensibilidade social, é um cara porreta, gosto dele. Mas o PSOL é a UDN da esquerda. Um partido moralista que tem desprezo pela posição do outro. Não sensibilizam ninguém, têm muito pouco voto, mas ninguém presta. Entrei para a política achando que podia mudar o mundo, nunca cedi à vaidade, à riqueza. E esse pessoal do PSOL me ataca como se eu fosse um picareta. São uns imbecis.
CC: Seu nome foi aventado como possível vice de Lula, não?
RR: Sim. Queriam que eu entrasse no PT para participar da disputa interna. Eu não sou petista nem oportunista, então não ia entrar no partido ao qual me opus à sua política econômica, e isso acabou por não dar certo. Nas suas várias tendências, há grupos no PT que aprenderam a se corromper nos fundos de pensão, há os que dominam os recursos partidários. Mas com todos os defeitos eu o considero o melhor partido do País, com enorme capacidade de retenção do idealismo político e indispensável para a nossa democracia.
CC: Por que não sai do MDB?
RR: O MDB tem todos os vícios de todos os outros, mas tem uma capilaridade incrível no País inteiro. De resto, retirou o P de sua sigla e isso é simbólico: não é exatamente um partido, mas um instrumento de manutenção de mandato que serve a qualquer governo. Algumas de suas lideranças sofrem de fraqueza ideológica e filosófica, e travam uma luta por sobrevivência sem qualquer espírito público. Sou amigo do Sarney e seu governo teve qualidades. Não sei o que pensa o Jucá, e o Renan é o Renan, né? E eu não sou juiz de ninguém.
CC: O que o senhor diria sobre Michel Temer, se tivesse de explicá-lo a um amigo estrangeiro?
RR: Tem um livro que se chama O Estado Espetáculo, de Roger Gérard Schwartzenberg, sobre propaganda e psicologia política. Ele está lá: é o político-rolha, que no Congresso não naufragaria nunca. Um conciliador que trabalhava bem com a direita, a esquerda, os corruptos, as pessoas sérias. Nunca foi alguém que propusesse o fim da Petrobras, a entrega das riquezas brasileiras. Tinha apenas uma sindromezinha com a Previdência Social. Por ambição, foi levado à Presidência e cedeu a tudo. Nunca vi Michel como entreguista, neoliberal, assassino do crescimento social – mas é o que acabou sendo, né?
CC: Não seria menos por ambicionar a Presidência e mais para fugir da polícia mesmo?
RR: Sem dúvida. E ao fugir da polícia viu a oportunidade de ceder a um projeto geopolítico e de globalização do capital.
CC: O senhor visitou Lula na cadeia. Como ele estava?
RR: Magro, fazendo ginástica, astral altíssimo, acreditando no que acredita. O velho Lula de guerra que conheço há 40 anos. Evidentemente que influenciado pelo desejo desesperado de sair de lá, porque ninguém quer ficar preso. Isso deve ter influenciado até na escolha do Haddad. É uma opção menos radical do que poderia ter sido do ponto de vista da necessidade do Brasil. O homem é ele e as suas circunstâncias, e Lula deve ter achado que a figura uspiana de Haddad facilitará o entendimento.
CC: O senhor teve pena dele?
RR: O que vi lá não foi um homem para se ter pena. Vi um sujeito firme, decidido, otimista. Lula hoje ultrapassou o Lula. O sentimento a seu favor está acima da fraternidade. É agora o sentimento da revolta contra a barbárie, o melhor da brasilidade expressa numa pessoa. A injustiça cometida contra ele é uma injustiça contra o Direito, e isso é muito mais grave que sua simples prisão. Sinaliza as corporações se sobrepondo à sociedade, o Judiciário se sobrepondo ao Congresso. Nada tem mais a Justiça brasileira a ver com a lei.
CC: O que o senhor pensa do seu conterrâneo juiz Sergio Moro?
RR: Sergio trabalhou paralelamente ao meu governo por oito anos, tivemos ações conjuntas de combate ao narcotráfico. É um quadro mediano do Judiciário, mas teve papel importantíssimo ao expor a corrupção. Depois foi levado pela vaidade e a cooptação. O mesmo deslumbramento que o desviou de seu caminho desviou também alguns petistas de seus princípios. Alguns estão presos.
CC: Lula se deslumbrou?
RR: Não posso achar deslumbrado um cara que comandou a sexta economia do mundo e é acusado de ter um apartamento numa praia na qual eu não passaria um fim de semana. É como se eu, no último dia como governador, pegasse despreocupadamente uma caneta e levasse no bolso. E depois terminasse acusado pelo Ministério Público de ter roubado uma Bic do Estado.
CC: O senhor já disse que vivemos num estado de exceção. Como acreditar então em eleições limpas?
RR: Não temos de acreditar, temos de fazer o melhor possível – é o ato eficiente. Não vamos conseguir a redenção absoluta do País, mas temos de conseguir de uma forma ou de outra somar para paralisar a regressão, sustar a volta à barbárie.
CC: O senhor lidera as pesquisas para o Senado, assim como outros progressistas. O Senado pode formar uma bancada à esquerda capaz de contrapor o conjunto de deputados que dificilmente serão renovados?
RR: (O filósofo italiano) Gramsci dizia: não há o canalha absoluto, este é um personagem da literatura. Todas as pessoas têm defeitos, qualidades e circunstâncias. As circunstâncias estão mudando, e parece que podemos avançar.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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