quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Desencontro

Por Laicrogos Negromonte

Juntos, José Maria Barroso e Bernardo Santos Maia caminhavam pelos lajeiros escorregadios, bordados de atrevidos cacto de espinhos ameaçadores, estorricados pelo sol inclemente da caatinga assanhada. Em cima das pedras mais altas, os discursos libertários eram proclamados aos ventos quentes, pelos dois idealistas, com aplausos das cigarras de zumbidos infindáveis e a concordância unânime de lagartos balançando as cabeças. Os oradores se revezavam disputando eloquências e utopias, interrompendo o canto dos cupidos, dos galos de campinas e dos corrupiões. As rolinhas cascavel, em sinal de protesto, arribavam em voos zoadentos e desvairados. Foi preciso escalar um serrote e mais outro, ultrapassar cercas de arames farpados até encontrar, num sovaco de terra, o pequeno povoado quase esquecido do mundo. 
As treze casinhas de taipa, cobertas de palhas de carnaúba, espalhadas entre frondosos cajueiros e mangueiras, formavam um conjunto aconchegante. Terreiros bem varridos rodeados de bancos de ipê. À sombra, redes de tucum estendidas entre estacas fincadas no chão. As crianças brincavam com saguis, passarinhos, teiús e filhotes de cachorros. 
José Maria e Bernardo chegaram num domingo, após a hora do almoço, lá pelas cinco da tarde. Estavam exaustos, pois se perderam várias vezes entre as inúmeras veredas tortuosas do lugar. Quando esperavam encontrar casas, esbarravam num açude, em plantações de milho ou numa capoeira de algodão. Pelejaram bastante, até encontrar uma enorme cajazeira. Agarrados nos últimos galhos da árvore, avistaram fumaças na direção do poente, provavelmente de lenhas queimadas, na mesma direção de uma gigantesca gruta de pedra. Dispensaram as veredas e seguiram em linha reta, no meio do sabiazal. 
Sentiam dores nos pés e nas pernas, inchados por furadas de espinhos e ferroadas de formigas roçadeiras; os cabelos estavam grudentos pela ação das abelhas arapuás; e os braços se mostravam em carne viva de tanto serem coçados por causa dos urtigões espalhados em toda parte. Mas nada os fez desistir. 
Prosseguiram. Enquanto caminhavam com as camisas molhadas de suor, os dois jovens se divertiam com uma conversa amena: 
-Ah, como eu gostaria de estar à beira-mar com minhas amigas de faculdade, tomando uma cervejinha bem gelada com tira-gosto de camarão. E você, Bernardo? 
- Rapaz... – Bernardo pensou por um instante – nestas férias escolares, eu estaria, com certeza, no sítio do meu pai. Curtindo banho de cachoeira, leitura de bons livros, violão, vinhos e aquele friozinho gostoso da serra. Que tal, meu amigo? 
Valeu a pena o sacrifício. Sentados no alpendre da casa de seu Raimundo Nonato e dona Maria - o casal mais velho e respeitado da comunidade -, Zé Maria e Bernardo foram tratados como príncipes. Toda a vizinhança se aconchegou para ver de perto aqueles jovens tão simpáticos e diferentes. As crianças olhavam para eles com admiração e mexiam em tudo: nos relógios, nos óculos, nos cordões de prata com crucifixos (ambos participavam de movimentos religiosos de educação de base, ligados à arquidiocese de Fortaleza). Até o farto bigode de Bernardo era acariciado pelos meninos e o narigão do Zé Maria se prestava a inocentes brincadeiras. 
Durante sessenta dias, ensinando nos três turnos, manhã, tarde e noite, Zé Maria e Bernardo conseguiram que quase todos fossem alfabetizados: donas de casa, agricultores, jovens e crianças. Nas horas vagas, os professores aprenderam a tirar leite de vaca, colher algodão, fabricar farinha de mandioca, brocar e capinar. 
Sob céu admiravelmente estrelado, trocavam prosas do cotidiano, contavam histórias de assombração, lorotas do campo e da cidade entrecortadas de gargalhadas que os acompanhavam até a hora de dormir. 
Voltaram para casa, Zé Maria e Bernardo, com as mochilas cheias de presentes além de lágrimas, muitas lágrimas e apertos nos corações. 
Foi uma experiência inesquecível! 
Passados muitos anos, Zé Maria caminhava bem devagar em direção ao museu para ver uma exposição de Portinari. Parou diante de uma cafeteria, sentou-se, pediu um expresso e um copo d’água. Olhou para sua direita e tomou um susto. Quase não reconheceu, era Bernardo, seu velho amigo. Cabelos brancos, vestia um blazer de pied-de-poule marrom. Parecia um lorde. 
De súbito, Zé Maria foi à sua direção e disse: 
- Bom dia, companheiro Bernardo – falou em tom agudo como nos tempos de outrora, quando militavam na União Nacional dos Estudantes. 
Abraçaram-se, mas não foi um abraço caloroso. O tempo passa, algumas pessoas mudam e outras não, permanecem com a mesma ideologia, com o mesmo idealismo. Enquanto Bernardo desfrutava de uma gorda aposentadoria e de rendas diversas, morando em um bairro nobre na cidade de São Paulo, Zé Maria vivia no interior do Ceará, aposentado como professor de ensino médio. 
Recordaram o passado com prazer, porém quando a conversa desaguou sobre a atual situação da política brasileira, Bernardo ficou inquieto, um pouco aborrecido. Bateu com força a xícara sobre o pires, olhou para o relógio e se despediu do “amigo” a pretexto de estar atrasado para um compromisso. Zé Maria ficou ali parado, meio pasmo, viu o ex-companheiro partir, pensou de olhos fechados e falou baixinho visivelmente desconcertado: 
- Lamentável desencontro!
Edição: Mário Pires Santana

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