terça-feira, 2 de outubro de 2018

O monstro não é fascista

Impossível comparar a Itália de 1922 com o Brasil de 2018 e Bolsonaro com Mussolini, mas aquele é tão terrificante quanto este.
Por Mino Carta/Opinião
Mussolini entra em Roma à testa da Marcha
O golpe de 2018 está à beira do abismo, mas criou um monstro chamado Bolsonaro. Um traço de trágica loucura percorre o enredo para conectar um lance a outro até o resultado final ao parir a Criatura.
Já ouvimos e lemos versões diversas na tentativa de interpretar o capitão furioso e entender-lhe os propósitos. Frequentemente desagua-se na convicção de que ele chega sobre o tapete voador de uma tardia versão do fascismo.
A palavra vem do italiano e aponta no fascio, ou seja, no feixe o símbolo da união que faz a força. A junção de elementos cingidos por uma corda, ou uma fita para que unidos se mantenham. Profeta e condottiere do fascismo, Benito Mussolini, nascido à esquerda e logo disposto a se transferir para a extrema-direita, a reação mais torpe. Tratava-se de um indivíduo letrado capaz de enxergar na Itália dos começos do século passado um país singular, cosmopolita e provinciano ao mesmo tempo, como escreveu Antonio Gramsci.
Ficou no poder por 23 anos, os dois primeiros como premier constitucional e os demais como ditador totalitário até o fim da Segunda Guerra Mundial. Mussolini é personagem tipicamente italiana, a perceber a fragilidade emocional de seu povo, que explorou à larga com discursos tonitruantes, encenações grotescas de
desfiles militarescos, fardas de ópera-bufa e bravatas de todo gênero. Fellini, em Amarcord, Bertoluci em Novecento, Risi em A Marcha sobre Roma, Scola em Um Dia Particular, entre outros, contaram admiravelmente a Itália mussoliniana, destinada à derrota bélica e a uma revolução interna que a ensanguentou nos últimos anos de guerra a opor os partigiani da Resistência ao exército nazista e aos últimos bandos de camisas pretas.
Mussolini pretendia transformar seu país em grande potência e o deixou em escombros. Foi fuzilado na fronteira com a Suíça, enquanto tentava fugir, juntamente com a amante Claretta Petacci. Impossível comparar o Brasil devastado pelo golpe de 2016 com a Itália saída da Primeira Guerra Mundial com o balanço de 600 mil mortos em batalha.
Somente então o país completou sua unidade à sombra de um processo de cima para baixo a produzir uma pequena burguesia recalcada e ambiciosa, fator decisivo do golpe fascista. O capitão Bolsonaro explora o caos provocado desde o impeachment de Dilma Rousseff para aprofundar até muito além da fronteira da demência os males do país da casa-grande e da senzala. Não é por acaso que a cada ano eleva-se o número de homicídios (cerca de 64 mil em 2017), e que a desigualdade volta aos patamares anteriores ao governo de Lula.
A história conta que raras tentativas em busca da contemporaneidade do mundo foram inexoravelmente frustradas, interrompidas brutalmente a favor do poder oligárquico. O Brasil atual resulta de um enredo de 500 anos de prepotência e predação, condenado a viver no período mais sombrio da Idade Média, onde a minoria da minoria é de ricos e super-ricos, enquanto o povo ainda traz no lombo a marca da chibata sem deixar de ser estupidamente festeiro.
Não há partidos na acepção correta da palavra, sequer a percepção justa do exato significado de esquerda e direita. Somos vítimas de uma ignorância generalizada e o fenômeno Bolsonaro é de genuína extração nativa.
Gostaria de pensar e escrever de forma diferente, mas quero ser honesto em primeiro lugar comigo mesmo. Se o monstro vencer não cairemos nos braços do fascismo, e sim de um híbrido monstruoso a garantir a vassalagem aos EUA e ao capital estrangeiro, a devoção ao deus mercado e à definitiva substituição de qualquer aspiração democrática pelo regime do preconceito desbragado e da lei do mais forte. Neste momento, a única esperança é representada pela força de Lula, pelo peso eleitoral que o ex-presidente conserva da sua condição de único líder de dimensão nacional.
Bolsonaro promete um pesadelo terrificante e contra isso se movem porções heterogêneas do eleitorado unidas pelo horror e pelo medo que a Criatura incute. Parece-me ouvir, porém, vozes díspares, inclusive midiáticas, como de hábito inclinadas a confundir as ideias. Exemplar deste ponto de vista o imortal Merval Pereira, intérprete do pensamento global e de inúmeros colegas propagandistas ao sustentar que bolsonarismo e petismo se revestem da mesma devastadora periculosidade.
Exemplar também Fernando Henrique Cardoso, que insiste impávido a se apresentar como o oráculo da verdade e da democracia na qualidade de supremo militante de um inexistente centro político. O príncipe da casa-grande afirma agora repudiar os extremismos, obviamente comandados por Bolsonaro e Fernando Haddad. De todo modo, as incógnitas estacionam no horizonte. Está claro que em caso de vitória do capitão não lhe faltará o apoio das Forças Armadas e tento imaginar a cena espantosa da entrega da faixa presidencial pelas mãos de Michel Temer.
E se Haddad vencer, que será capaz de excogitar o establishment? Um golpe à moda antiga, apesar das feições serenas do candidato de Lula? E se Bolsonaro começar a cair nas pesquisas que se amiúdam, poderá haver bolsonaristas de ocasião prontos a se bandear para o chamado Centrão em nome do antilulismo ou antipetismo que seja? Esta hipótese é bastante improvável a esta altura, mas não pode ser descartada, diz André Barrocal, de Brasília.
Ao cabo de 72 anos de Brasil, colhe-me um dissabor jamais experimentado desde o dia em que, sem chance de opinar, meu pai Giannino chegou na certeza de aportar ao País do Futuro. Não se enganava, a se levarem em conta os infindos favores da natureza.
O golpe de 1964 sustou a busca da contemporaneidade, mas não enterrou as esperanças, a despeito de todas as pedras semeadas pela ditadura ao longo do caminho.
A dita redemocratização esteve muito longe de justificar seu nome, a eleição de Lula, entretanto, criou ânimo novo por um empo curto demais. Poucos anos bastaram para nos mergulhar nesta situação de incerteza nunca dantes navegada.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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