domingo, 25 de novembro de 2018

A consciência negra que vem de Deus

É algo a ser cultivado por todos os seres humanos, de qualquer cor, classe social e local de moradia.
Por Magali do Nascimento Cunha
Estudo, de Peter Paul Rubens/Foto/Reprodução
Consciência é a capacidade de a mente humana perceber a relação que tem com o ambiente, com a realidade em que está inserida. “Ser consciente” implica vivências, experiências, a compreensão da vida.
Por isso, é preciso aprendizados formais e informais, “con-vivências”, aberturas ao outro e a outras existências, (co)existir. Quanto mais experimentamos para além do que temos e somos tomamos mais consciência da complexidade da vida, sua diversidade, suas demandas. É muito significativo que tenhamos um dia para destacar a “consciência negra” no Brasil. Por séculos, a colonização política e cultural europeia instituiu que negros seriam uma segunda categoria de humanos, uma raça inferior, para justificar a escravidão dos povos africanos.
Isto se fez com o apoio da ciência (teoria das três raças) e da religião (teologia da maldição de Caim, o fratricida da primeira família humana criada por Deus que teria se exilado na África).
Muita gente dedicou a vida à contestação desta ordem cruel. No século XVIII, os negros quilombolas, simbolizados na figura de Zumbi dos Palmares, se opuseram à ordem imposta para fazer valer a vida e a dignidade dos negros como humanas.
Ao mesmo tempo, cristãos brancos conscientes da opressão colonial denunciaram e contradisseram as ideologias racistas na Inglaterra, o país que mais traficou escravos. Entre eles estavam o inspirador da Igreja Metodista John Wesley e o anglicano William Wilbeforce.
A escravidão chegou ao fim, ao menos como prática oficializada, e foi condenada pela história. A ciência corrigiu seus rumos e o Projeto Genoma derrubou a teoria das raças ao provar que a raça humana é uma só.
Mais cristãos fomentaram uma leitura da fé para a superação do racismo, formaram consciências e inspiraram movimentos por igualdade e justiça que até hoje marcam o mundo. Entre eles estão o pastor batista estadunidense Martin Luther King e o leigo metodista da África do Sul Nelson Mandela.
Ainda que leis de segregação racial nos Estados Unidos tenham sido superadas e o regime do apartheid na África do Sul tenha sido vencido, o racismo ainda persiste nestes países e em muitos outros. As marcas da ideologia da supremacia branca e da exploração das pessoas negras, insistem em permanecer vivas, mesmo que sejam criadas leis para superá-las, como no Brasil.
É atroz o racismo estrutural como o que ocorre com o descaso do mundo com a África e no Brasil. Aqui ele se dá via barreiras (invisíveis) de acesso a cargos públicos, postos de trabalho qualificados, vagas de estudo, locais de lazer e moradia, e índices de trabalhadores de serviços gerais, pessoas encarceradas, moradores de periferias.
Este racismo presente na cultura permite que líderes políticos brancos afirmem, sob risos de uma plateia branca: “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas (medida usada para pesar gado). Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de 1 bilhão de reais por ano é gasto com eles” (Jair Bolsonaro, presidente eleito do Brasil, Clube Hebraica, Rio de Janeiro, 3 de abril de 2017).
A consciência negra é afirmativa da negritude e por isso demanda libertação destas tantas amarras que persistem. Vale destacar um evangélico que falava sobre o assunto no Brasil do século XIX, Agostinho José Pereira.
Negro alfaiate, ele fundou, em Recife, em 1841, a Igreja do Divino Mestre, que de fato deveria ser considerada a primeira igreja evangélica do País.
Pereira se converteu ao protestantismo pela pregação dos missionários distribuidores de Bíblias que passaram pela cidade. Pregava nas ruas e depois fundou a igreja, que chegou a ter 300 integrantes, negras e negros livres.
O evangélico praticava um cristianismo social e alfabetizava os fiéis num tempo em que boa parte dos donos de terras e de escravos eram analfabetos. Ele pregava um Jesus não-branco, afirmava que o povo negro foi a primeira criação humana de Deus e que a libertação que a Bíblia inspira era o fim da escravidão.
O líder evangélico tinha como modelos a Revolução Libertária do Haiti (1804) e a Revolta dos Malês (1835), na Bahia.
Considerado herege pela Igreja Católica e subversivo pelo governo, foi preso aos 47 anos como rebelde e fanático religioso. A repressão se estendeu aos demais fiéis. O alfaiate pastor tem destino desconhecido. Alguns jornais da época falam que ele foi condenado à prisão e outros, que foi deportado.
Esta história merece ser mais estudada como instigadora de uma consciência negra evangélica. Ao estudar esta história no século XIX, o pesquisador inglês Charles B. Mansfield chamou Pereira de Lutero Negro.
Consciência negra, portanto, não diz respeito somente aos negros, sua auto-valorização e afirmação social. Consciência negra é algo a ser cultivado por todos os seres humanos, de qualquer cor, classe social, local de moradia.
É construir sentimentos e percepções do que é correto e do que é errado, do que é suficiente e do que falta, do que é comum e do que pede atenção, do que é saudável e do que demanda cuidado, do que é benefício e do que exige reparação. É aprender a (co)existir. É para a vida toda.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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