quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Como o Chile pode ser um modelo para os países vizinhos?

"É um erro falar do modelo chileno, como se desde Pinochet até hoje houvesse as mesmas políticas econômicas", diz o economista Ricardo Ffrench-Davis.
Da *AFP
Os presidentes Sebastian Piñera e Michel Temer se encontraram em Santiago para fechar acordo de livre comércio entre os dois países/Martin Bernefit/AFP
Por Ana Fernandez

Estabilidade política, níveis baixos de corrupção e um dinamismo econômico iniciado na ditadura (1973-1990) baseado em um Estado menor e mais exportações tornaram o Chile um modelo que líderes como Jair Bolsonaro desejam imitar.
Existe modelo chileno? "É um erro falar do modelo chileno, como se desde (Augusto) Pinochet até o atual presidente Sebastián Piñera houvesse as mesmas políticas econômicas", disse o economista Ricardo Ffrench-Davis.
"Há coisas em comum que se mantêm ao longo do tempo e padrões, mas há mudanças substanciais, tanto de políticas, quanto de reformas", disse à AFP o economista, autor do livro "Reformas económicas en Chile, 1973-2017" e professor da Universidade do Chile.
Desde que, em 1975, Pinochet recorreu aos "Chicago boys", alunos do economista ultraliberal norte-americano Milton Friedman, para elaborar um
modelo que rompesse com o projeto socialista de seu antecessor Salvador Allende, contra quem deu um golpe de Estado militar em 11 de setembro de 1973, o país foi adaptando suas políticas à realidade social.
O modelo é marcado por um Estado reduzido ao mínimo, pela venda de empresas públicas e pela privatização de serviços básicos - como saúde, educação e principalmente previdência, com a introdução à época de um sistema de de capitalização individual copiado por vários países da região e que, hoje, com a primeira geração de aposentados, mostra suas limitações. 
Nos últimos anos, as pressões de estudantes exigindo educação gratuita e - mais recentemente - o clamor popular para reformar o sistema previdenciário, que hoje entrega aposentarias baixíssimas, forçaram os governos a dedicar maiores recursos do Estado.
Apenas as Forças Armadas - hoje em plena crise por casos de corrupção e abusos de poder - ficaram de fora da febre privatizadora da política de choque da época, e se beneficiam de um regime de aposentadorias e saúde garantido pelo Estado.
Em 1989, um ano antes de entregar o poder ao social-democrata Patricio Aylwin à frente da Concertación, coalizão de centro-esquerda que governou o país durante duas décadas, o poder de compra real do salário mínimo era inferior ao de 20 anos antes.
"O Chile está muito longe de ser um país desenvolvido, mas cresceu muito mais na democracia do que na ditadura", explica Ffrench-Davis, também aluno da Universidade de Chicago, onde Paulo Guedes, futuro ministro da Economia brasileiro, fez mestrado e doutorado.
Guedes, que morou no Chile no começo dos anos 1980, quer levar ao Brasil algumas das receitas aplicadas pelo Chile: menos Estado, menos proteção social e menos impostos, um programa ambicioso, levando em conta que o governo não tem maioria na Câmara dos Deputados.
Transparência é a chave
Acostumado a se reconstruir a cada vez que um terremoto lhe destrói, o Chile hoje se tornou o país com mais acordos comerciais - o último, assinado nesta quarta-feira, justamente com o Brasil - e um dos principais defensores do livre-comércio, contrário ao protecionismo impulsionado por Donald Trump e Bolsonaro.
"Nos opomos a toda forma de protecionismo e de práticas desleais em matéria de comércio e queremos fortalecer e promover com muita força a economia digital, a inclusão e nossa incorporação à quarta revolução tecnológica", lembrou Piñera, no Fórum Ásia Pacífico (APEC) em Papua Nova Guiné.
Contudo, alcançar a maior renda per capita da América Latina e aspirar a se transformar, em menos de uma década, em um país desenvolvido, não teria sido possível sem a probidade dos políticos que governaram o país durante o período democrático.
"A impressão que tínhamos nos anos 1990 era que as pessoas que estavam no governo eram ultrahonestas. Os cargos eram por mérito e não por militância. Trabalharam muito, embora tenha havido um processo gradual de deterioração, mas não de grande escala", diz Ffrench-Davis, lembrando que, quando os mandatários deixavam o governo, "voltavam para casa" onde sempre viveram.
Diferentemente dos países vizinhos, não há nenhum político no Chile envolvido no escândalo de corrupção da empreiteira brasileira Odebrecht, embora a imagem da classe econômica chilena tenha sido machada nos últimos anos por vários escândalos.
*Leia mais em AFP
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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