segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Flanelinha bailarino

Por Laicrogos Negromonte

Toinho chegou ao seu ponto de trabalho meio tonto, tonto de fome. Na noite anterior, com um casal de filhos e a esposa, jantou três ovos, um pouquinho de arroz e o feijão que sobrou do almoço. Não tomou café pela manhã. Deixou um real para a esposa comprar pães e saiu às pressas. 
Na calçada da padaria, estava esperto. A cada carro que se aproximava, dava um salto e, com os pés de bailarino calçados em chinelas japonesas desgastadas, inclinava-se, estendia os braços apontando a direção certa para o carro entrar no espaço delimitado e parar. Rodopiava como Manolete – o matador de touros –, tirava o boné amassado, esboçava um sorriso desdentado e dizia: 
– Bom dia, doutor! Pode ficar tranquilo que eu pastoro o carro do senhor. 
Imediatamente, correu até a figueira e tirou um pedaço de caixa de papelão preso entre os galhos da árvore. Com muito cuidado para que ninguém notasse, colocou o papelão sobre o para-brisa do automóvel para protegê-lo do sol causticante. Não era o capote do toureiro, mas servia para seduzir o touro – no caso, o dono do veículo – quando voltasse das compras na padaria. 
Suado, Toinho ziguezagueava no passeio para um lado e para outro, esperando
mais um carro. Ao mesmo tempo, ficava de olho no encrenqueiro vigia do quarteirão. Sua cabeça ardia de tanto pensar. 
– Aquele careca buchudo deve ter dinheiro, seu carro é novo e bonito demais. Quem sabe, dois reais na minha mão. Vai ser legal! Aí eu tomo um café com pão bem torrado e, se a garçonete deixar, passo uma manteiguinha. Ah, não vejo a hora... 
Levando muitas sacolas de plástico cheias de pães e bolos, o motorista do carro (era motorista e não proprietário da linda Mercedes estacionada) acionou o controle remoto e a porta se abriu automaticamente. Toinho correu segurando na mão direita um pedaço de bambu. Retirou rapidamente o papelão com a mão esquerda. Ergueu-se nas pontas dos pés e, como um espadachim, levantou o bambu. O papelão estava firme na posição horizontal. Parecia o toureiro Manolete com seu “capote de brega” e sua “suerte de matar”, não o bravo touro de Lídia, mas aquele homem apressado para entrar no veículo. 
Com cara de pidão, Toinho estendeu o braço e abriu a mão suavemente, na certeza de receber uma boa gorjeta. 
– Não dei licença para você colocar esse papelão – disse o senhor meio aborrecido. 
Em seguida, tirou uma moeda do bolso e deu para Toinho. Ao conferi-la, o flanelinha ficou triste, era uma moeda de cinquenta centavos. Desajeitado, com a bexiga cheia, afastou-se do lugar onde estava, não para abordar outra pessoa, mas para urinar. Entre dois montes de lixo, relaxou. 
– Meu Deus do céu, essa gente parece que quanto mais rica mais miserável fica. Valei-me, meu São Francisco das Chagas! Amoleça os corações dessas pessoas. Estou pedindo porque preciso. Pelo jeito, vou ter que sapatear muito... 
Edição: Mário Pires Santana

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