segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Que País vai ser esse

POR *EMIR SADER
Vamos passando do pesadelo à realidade. Vai se passando das ameaças nos discursos à sua concretização. As nomeações para o novo governo e as iniciativas concretas vão projetando a imagem do que poderá ser o Brasil a partir de 2019.
Uma primeira certeza: a manutenção, numa versão mais radicalizada, do modelo neoliberal. Um ministro de economia "Chicago boy" vinculado ao governo Pinochet, que se propõe a "privatizar tudo o que der", é uma ameaça gigantesca para o patrimônio púbico e para a própria convivência entre os brasileiros, pela forma como pretende aprofundar ainda mais a fragilização dos direitos dos trabalhadores. Representa, ao mesmo tempo, a continuidade da hegemonia do capital financeiro, na sua modalidade especulativa, sobre o conjunto da economia.
Esse elemento representa, ao mesmo tempo, sua primeira grande fragilidade. Todos os governos que mantiveram a política econômica neoliberal, seja o de Michel Temer no Brasil ou o de Mauricio Macri na Argentina, rapidamente perderam o apoio popular que haviam conseguido. Porque essa política tem repercussões sociais sumamente negativas, seja por prolongar e aprofundar a recessão, seja por afetar diretamente o poder aquisitivo dos salários. Além dos duros cortes nos recursos para as políticas sociais, que deixam os setores mais pobres da população mais ainda sem defesa para a sua sobrevivência cotidiana.
A nomeação de Sergio Moro para o governo, além de confirmar tudo o que se dizia da sua adesão política aberta à direita, representa a perspectiva de consolidação de um estado policial, articulando no próprio governo a ação de perseguição política da parte do Judiciário, com a ação da Policia Federal e da aprovação de legislações fortemente restritivas dos direitos da cidadania e da própria liberdade de expressão, sustentada na maioria parlamentar do novo governo. Residem aí as maiores ameaças à democracia e à própria liberdade. Os reiterados anúncios de possíveis projetos de lei ou decretos que criminalizariam aos movimentos sociais, voltam sempre à tona.
As privatizações, aparentemente, serão um carro chefe do novo governo, buscando liquidar irreversivelmente a Petrobrás, a mais importante empresa brasileira. Como princípio reitor da velha e fracassada ideia do Estado mínimo, outras áreas serão afetadas por essa forma de promoção da centralidade do mercado.
*Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros.
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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