segunda-feira, 5 de novembro de 2018

RELEMBRANÇAS & NOVIDADES

Por volta de 1956, fomos levados pelo Senador José de Mendonça Clark, que era membro da família Clark e sócio da Casa Inglesa, para o Rio de Janeiro.
No Palácio Monroe — Rio — Senado Federal. 
Por *José Carlos Ribeiro (in memoriam) 

Por volta de 1956, fomos levados pelo Senador José de Mendonça Clark, que era membro da família Clark e sócio da Casa Inglesa, para o Rio de Janeiro. Fomos trabalhar na Secretaria do Senador, ou Gabinete, como se denomina hoje em dia. O Senador tinha escritório na Rua Almirante Barroso, anexo à Filial da Casa Inglesa e no Palácio Monroe, no comecinho da Avenida Rio Branco, no Rio. O sonho de todo mundo, naqueles Anos Dourados, era viver no Rio de Janeiro — a Cidade Maravilhosa. Fui conversar com o Senador Mendonça Clark, na sua bela residência, ali perto da Praça da Estação. Claro que aceitei o convite e fiquei muito honrado. Em poucos dias, pegávamos o DC3 da Cruzeiro do Sul, que sucedera a CONDOR. Assis Correia, o Agente, deu-me as instruções de como me comportar no Rio. Saímos de manhã de Parnaíba e fizemos escala em Brejo dos Anapurus. Por volta de 11h30min aterrissávamos em Teresina. Ali, deveríamos tomar hotel, porque o DC3 iria para o Norte e só voltaria, para viagem ao Sul, no dia subsequente. A Companhia hospedou-nos num hotel, na Praça Saraiva. No outro dia, pela manhã, logo cedo, embarcamos para o Rio. Escalas em Floriano, Gilbués, Petrolina, onde almoçamos. Depois a Bahia. Bom Jesus da Lapa e mais duas cidades já descambando para o litoral — ao encontro de Porto Seguro. Já de noite, aterrissamos em Caravelas. Por volta das 21h / 22h chegamos ao Aeroporto Santos Dumont, na Baia de Guanabara. Esperava-me o Pepe — José Carlos Pereira Correa, sobrinho do historiador Viriato Correa, o qual me colocou num hotel na Rua do Catete. No outro dia, já às 08h30min, dávamos início às atividades no Escritório do Senador. Nova Vida. Novos trabalhos. As atividades vinculavam-se à Filial da Casa Inglesa e também ao Gabinete do Senador. Tive que me enfronhar em assuntos de Política e de Projetos de obras do Piauí. Dividia o expediente entre o Escritório da Casa Inglesa, na Almirante Barroso e o Gabinete no Palácio Monroe, demolido por causa das obras do Metro. Tive que tomar conhecimento da problemática do Piauí, de Parnaíba, especialmente, e de outros municípios a que o Senador era mais ligado. Para encaminhar documentos, projetos, expedientes diversos, do Senador aos Ministros e Chefes de Repartições, tive que aprender rápido a me movimentar pelos meandros da burocracia, pois tinha que acompanhar o andamento e a tramitação dos documentos encaminhados. Sendo muito ativo e operante, o Senador Mendonça Clark desenvolvia atividade constante na busca de recursos para financiar obras no Piauí e defender os interesses do Estado. Ao Piauí, como ao Nordeste, desde aqueles tempos, não se atribuía prioridade ou disponibilidades orçamentárias. Daí o esforço de Mendonça Clark em lutar por recursos orçamentários para o Estado. Já naquele tempo, as obras consideradas essenciais eram: Porto de Luís Correia; ampliação da Estrada-de-Ferro Central do Piauí; abertura de rodovias, pois nem se conhecia asfalto; melhora da navegação fluvial; abertura de uma rede de hospitais e colégios públicos. Pouco se conseguia, por falta de vontade política do Governo Federal. O Piauí, como o Nordeste eram vistos como a África. Não era de bom-senso investir dinheiro onde não havia retorno. Homem de visão, o Senador Mendonça Clark batalhou, o quanto pode, para implementação de projetos inovadores e avançados nas áreas de educação e saúde, como também a consolidação do pólo industrial parnaibano. Promessas não faltaram. Mas nada se fez. A insensibilidade em relação ao Nordeste persiste até hoje. A experiência do trabalho no Palácio Monroe foi bastante gratificante. A convivência quase íntima, com as atividades próprias da senatoria, dos contatos com ministérios, com repartições, com a política e o sistema de regras respeitantes a direção dos negócios públicos deram-me, prematuramente, o entendimento da cidadania, da compreensão do que é um país, a coletividade, a nação, o Estado. Tivemos o privilégio de ver, de muito perto, a atuação de parlamentares que se constituíram ícones do Brasil, como: João Mangabeira, Capanema, Vieira de Melo, Prado Kelly, Afonso Arinos de Melo Franco, Carlos Lacerda e outros de igual quilate. Do Palácio Monroe, para o Tiradentes (Câmara dos Deputados) ia-se a pé. E a interação entre as duas casas e seus deputados e senadores era intensa. Mendonça Clark muito nos ensinou a ver a realidade e a tratar adequadamente os problemas do cotidiano. Levou-me, algumas vezes, ao Catete, onde fomos apresentados ao Presidente JK, quando comprovamos seu magnetismo pessoal e porte de estadista. O amor e as forças telúricas remeteram-me de volta ao Nordeste, conquanto sejamos apaixonados — confesso-o — pelo Rio de Janeiro.
Fonte: email do amigo, Renato Bacellar
Edição: Mário Pires Santana

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