sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Uma História de Vida - Inácio Loiola de Araújo

Por *Maria de Lourdes Araújo Castro – Rio de Janeiro

A pedido da família fui designada a fazer um breve relato sobre a trajetória de uma pessoa que deixou um exemplo de vida, norteando a todos nós na sua essência, este relato me transporta aos dias mais felizes que compartilhei em sua companhia durante minha infância e adolescência e, apesar de ter me ausentado cedo, estive sempre presente nos acontecimentos importantes da família, portanto, orgulho-me de escrever a trajetória de vida de quem soube honrá-la pelo trabalho, caráter e principalmente pela espontaneidade, humildade e bondade que eram a sua marca registrada.
A 13 de março de 1924, nascia na cidade de Santana do Acaraú no estado do Ceará, o segundo filho de Manoel Messias de Araújo e Maria da Conceição Farias, Inácio Loiola de Araújo. Teve uma infância tranquila, porém aos sete anos ficou órfão de mãe, mais tarde seu pai casou-se com Maria Zeferina de Araújo que o acolheu como filho, ganhou mais três irmãos, Laurice, Zé Messias e Maria Socorro, esta última residente em Parnaíba, que vem ser a mãe de Helder Fontenele administrador da página “Parnaíba das Antigas” no Facebook. Estudou até concluir o curso primário (hoje fundamental incompleto), mas sabia fazer contas “de cabeça” como ninguém, como também tinha uma caligrafia invejável. Apesar de muito moço, em companhia de seu irmão mais velho, Raimundo Messias, abandonou a sua cidade natal e, junto com um primo, Raimundo Araújo passaram a morar na cidade de Meruoca, a 15 km de Sobral.
Abro um parêntese para ilustrar que, posteriormente, seu primo, Raimundo Araújo veio a residir em Parnaíba, abrindo uma conhecida fábrica de Guaraná que ficava na Rua Cel. Pacifico como o nome de Guaraná Nordeste.
Em Meruoca, percorria todas as localidades oferecendo suas mercadorias, nesta aventura, já por volta de seus 18 anos, ao chegar na localidade de Anil, durante um festejo religioso, conheceu Filó, moça graciosa na faixa de seus 15 anos e que tocou seu coração, começando ai uma paixão silenciosa, que foi correspondido. Filó residia num sitio da família a 6 km da cidade de Meruoca com o nome de Sitio São Rafael, já então órfã dos pais, morando com um irmão mais velho que, vendo o interesse do jovem pela irmã, tratou de facilitar o namoro, pensando num futuro promissor para ela. Mas somente aos 21 anos e ela com 16 casaram-se em 6 de Dezembro de 1945. E logo depois foram para o município de Massapê para a constituição da família Costa Araújo.
Em Massapê trabalhou na Fábrica de Bebidas Santa Terezinha. Permaneceram lá por dois anos, onde nasceram os dois primeiros filhos. Maria do Socorro e Manoel Charles. Mas as coisas não iam muito bem e, pensando num futuro melhor, tendo parentes em Parnaíba, cidade do Piauí em desenvolvimento, 
decidiu, em companhia de seu irmão Raimundo Messias tentar a sorte nesta cidade promissora. Chegando em Parnaíba, Filó já na terceira gestação encontrou muita dificuldade para se instalarem na cidade. Teve apoio de um tio, irmão de seu pai, um comerciante muito conhecido na cidade, José Inácio, instalado na Rua Marquês do Herval (onde existe um imóvel com seu nome na mesma rua).
Enfrentou muitas dificuldades financeiras, e tendo que pensar em aumentar as crianças, Filó lançou mão de dois anéis de ouro que tinha de lembrança da família, entregou para o amado seu único patrimônio, com a venda dos anéis iniciou com o irmão uma pequena destilaria, distribuindo os produtos nas casas comerciais. Fabricavam cachaça, tiquira e vermute. Nesse intervalo, já em 1949, nasce o terceiro rebento, uma menina, Maria de Lourdes, pelas mãos de um jovem médico na Maternidade Marques Basto, cirurgião obstetra Dr. Edgar Véras que pela sua forma humanizada de tratar às parturientes conquistou a cidade, sendo a partir dai o médico da família e padrinho de um dos filhos.
No final dos anos 50, desvinculou-se do irmão e com muita força de vontade iniciou no ramo da panificação com uma pequena padaria na Rua Vera Cruz com o nome de Padaria Palmeiras, juntamente com torrefação de café, teve como empregado um jovem de nome João que o acompanhou por toda a sua trajetória e que foi seu alicerce na fabricação de pães. Todos nós tínhamos muito carinho por toda a sua família, deixo aqui minha homenagem ao amigo fiel que meu pai teve. Aos poucos meu pai foi prosperando, se especializando na confecção de pães e até de macarrão, a prole foi aumentando sempre com Filó no comando.
Nos anos 60 novamente com o irmão e um amigo Benedito Pontes abriram uma sociedade e compraram uma padaria na Rua Riachuelo com o nome de Panificadora Fortaleza, logo depois o sr. Benedito Pontes desvinculou-se, ficando somente os dois com a razão social de Raimundo Messias e Cia.
A partir dai o negócio prosperou, tornando-se a Padaria da cidade com o melhor pão da cidade. Meu pai sempre ia à Fortaleza fazer curso de panificação. Abriram outra frente na fabricação de sorvetes e picolés, sendo também fabricantes do melhor sorvete da cidade. Tinham como empregado um cunhado do irmão com o nome de Juarez que aprendeu a fazer sorvete com meu pai. Juarez veio a ser o fabricante do melhor sorvete de Fortaleza, criando a rede de Sorveteria do Juarez. No final dos anos 60 abriram outra frente, no ramo de supermercado, sendo pioneiros nessa forma de atendimento, e muito aceito pela população que não tinha este tipo de comércio.
Inácio sempre à frente na confecção dos pães e sorvetes. Sua rotina era das 4 da manhã até às 22 horas. Abria e fechava o comércio. O irmão era o responsável pela administração do patrimônio. Era religioso, cumprindo suas devoções, mas tinha uma obrigação maior com maçonaria, não faltava às reuniões da seita. Muito humanitário sempre ajudando aos menos favorecidos. Na noite de Natal, preparava uma grande ceia e distribuía nos bairros carentes. Só depois é que sentava com a família.
Por volta de 1976 a sociedade foi desfeita, aposentando-se em seguida. Mas ainda deu sua contribuição na abertura de uma padaria de propriedade de seu genro Tote Coimbra e de seu filho Pedro, aplicando todo o seu conhecimento de panificação, dando qualidade aos produtos fabricados, tornando o estabelecimento muito procurado pelos moradores do bairro.
Mas o tempo foi ingrato, Deus o chamou muito cedo, falecendo aos 74 anos com o mal de Azheimer, deixando uma grande saudade a todos nós.
“Seus ensinamentos vão me acompanhar sempre, assim como a sua preciosa memória”.
*Maria de Lourdes é filha de Inácio - mariaaraujo.castro49@gmail.com  
Obs. Tenho a honra de ter conhecido o Sr. Inácio em vida, e ser amigo de sua família. Morei em Salvador com seus filhos, Charles e Pedro.  
Edição: Mário Pires Santana

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