quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Carta de Caracas: Estados Unidos e seus cúmplices reconhecem um presidente fantasma

Por *Álvaro Verzi Rangel 

A INFORMAÇÃO NÃO 
É MERCADORIA, É UM BEM PÚBLICO.

Venha se somar aos mais de 100.000 leitores cadastrados
No mundo da pós-verdade tudo é possível. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e vários dos governos latino-americanos cúmplices, reconheceram o autoproclamado Juan Guaidó, presidente de uma Assembleia Nacional em rebeldia, e que não tem sequer um voto, como presidente interino da Venezuela, com o aval de Washington. A reação (inesperada?): Maduro rompeu relações com os Estados Unidos.
Este 23 de janeiro foi apresentado pela oposição como o “Dia D”, em releases para a imprensa internacional. Acabou sendo o dia da desmobilização de uns e de outros. Dia da demonstração da apatia e da passividade que os venezuelanos, cansados de uma oposição sem ideias nem credibilidade e de um governo que não consegue tirar o país da grave crise econômica e social em que se encontra. É verdade que o governo não convocou uma mobilização, mas tampouco é fácil organizar um movimento genuíno em apoio a Maduro. Os meios cartelizado se encheram de fake news, de mentiras e meias verdades sobre um presidente fantasma, que talvez instale o seu governo em Washington
ou Bogotá.
Romper relações
O presidente Nicolás Maduro anunciou a decisão de romper relações diplomáticas com Washington. “O governo imperialista dos Estados Unidos dirige uma operação para impor um governo títere através de um golpe de Estado. Pretendem eleger e designar o presidente da Venezuela por vias extraconstitucionais”, expressou o mandatário, em discurso transmitido do Palácio de Miraflores.
“Fora! Vão embora da Venezuela. Aqui há dignidade, caralho! Aqui há um povo disposto a defender esta terra”, agregou o governante, indicando que os integrantes da sede diplomática estadunidense têm 72 horas para abandonar o país. “Os nossos problemas se resolvem em casa, sempre contando com o povo”, reiterou Maduro, assegurando que não permitirá que países estrangeiros se intrometam em assuntos internos da Venezuela.
“Hoje, vimos um silêncio informativo brutal. Os meios de comunicação internacionais, mais uma vez, censuram o povo da Venezuela, todos os meios internacionais atuam para invisibilizar para o mundo que aqui há um povo bolivariano governando”, comentou Maduro em seu discurso.
Uns são cúmplices, outros são soberanos
O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, disse que o processo de dois anos iniciado pela Venezuela em abril de 2017 para abandonar o organismo foi interrompido. “Obviamente, o relógio está parado a partir de hoje”, disse o diplomata, um dos impulsores da estratégia do governo paralelo, e que provavelmente terá que alojar o suposto “presidente interino” nos escritórios da organização que lidera, em Washington.
Como era previsível, o mandatário colombiano, Iván Duque, também reconheceu Juan Guaidó como presidente interino autoproclamado. A Colômbia “acompanha este processo de transição à democracia, para que o povo venezuelano se libere da ditadura”, disse, durante sua passagem pelo Foro Econômico de Davos. A mesma postura se espera do governo do Canadá, que também segue o roteiro de Washington.
“Confiamos, como os demais países do Grupo de Lima, que a decisão da Assembleia e do seu Presidente conduza ao restabelecimento da democracia, através de eleições livres e transparentes, com plena vigência da Constituição e a participação de líderes da oposição”, disse o argentino Mauricio Macri, fazendo coro ao ditado de Washington.
Guiadó, um jovem quase desconhecido pelos venezuelanos, assumiu como presidente interino diante de centenas de pessoas congregadas na avenida Francisco de Miranda, em Caracas, durante uma mobilização em respaldo ao parlamento e contrária ao governo do presidente Nicolás Maduro.
“O presidente Donald Trump reconhece oficialmente o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, como o presidente interino da Venezuela”, anunciou o porta-voz da Casa Branca, agregando que se usará “todo o peso diplomático e econômico dos Estados Unidos para pressionar pela restauração da democracia venezuelana”, e estimulou a que “outros governos do hemisfério ocidental reconhecem Guaidó como presidente da Venezuela”.
Porém, nem tudo foi cor-de-rosa para o presidente estadunidense neste dia. O governo do México afirmou que reconhece o governo de Maduro, apesar da jogada de Juan Guaidó. “Nós reconhecemos as autoridades eleitas de acordo à Constituição venezuelana”, disse o porta-voz da Presidência mexicana, Jesús Ramírez. “Até o momento, não há nenhuma mudança em suas relações diplomáticas com este país ou com o seu governo”.
Por sua parte, o presidente boliviano expressou: “nossa solidariedade com o povo venezuelano nestas horas decisivas, quando as garras do imperialismo buscam novamente ferir de morte a democracia e a autodeterminação dos nossos povos da América do Sul. Nunca mais aceitaremos ser o quintal dos Estados Unidos”.
Bolivarianos em vigília
O vice-presidente do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), Diosdado Cabello, afirmou que “hoje, os lacaios do império dizem que Nicolás Maduro deixou de ser o presidente. E quem colocaram no lugar? Quem votou nesse sujeito escolhido por Washington? E por quem votou o povo? Fazemos um chamado à unidade das forças revolucionárias, dos partidos do Grande Polo Patriótico. A unidade é o que garante o triunfo da revolução. Que ninguém se renda!”.
Para ele, a oposição “acredita em um país de fantasia, nós acreditamos na realidade das ruas, na pátria e em um futuro de paz. Alguns companheiros estão nervosos. Não nos angustiemos, porque aqui os angustiados são eles (a oposição). Tentarão nos provocar, para que caiamos em suas armadilhas. Não, são eles os que estão presos à sua própria armadilha”, enfatizou em seu discurso. Também pediu aos militantes que se mantenham em vigília diante do Palácio de Miraflores.
A guerra sob mando militar estadunidense
Nesta terça-feira (22/1), o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, divulgou um vídeo dedicado aos venezuelanos para estimular que protestem contra o mandatário Nicolás Maduro, destacando o forte respaldo de Washington ao líder opositor Juan Guaidó, e foi reproduzido por mais de 2 mil meios de imprensa em todo o mundo.
Com respeito aos meios latinos, se contrataram os espaços e tempos mais vistos, escutados e destacados de vários países. O “discurso” de Pence foi preparado por 25 assessores muito bem escolhidos da Espanha, México, Colômbia, Argentina e Brasil, sob a coordenação de especialistas da OEA e da organização Human Rights Watch.
Pence treinou seu discurso durante 12 horas, nos dias 17, 18 e 19 de janeiro, um trabalho árduo e muito exigente. Para os generais do Comando Sul, já não existem partidos nem dirigentes na oposição venezuelana que sejam capazes de manter uma luta pelo poder contra os chavistas através da via eleitoral ou democrática. Por isso, foi Pence quem teve que fazer o discurso em nome da oposição venezuelana.
O Comando Sul, em combinação com o chamado Grupo de Lima e a direção da OEA participam do plano para uma intervenção externa na Venezuela, que visa criar um agonizante e assustador quadro interno de crise social, que permita uma reação da comunidade internacional disfarçada de “ajuda humanitária”.
Diante deste futuro quadro “agonizante e assustador”, os Estados Unidos assumiriam um papel mais protagonista. No dia 27 de dezembro, junto com um grupo de opositores venezuelanos, se decidiu em Washington iniciar o golpe mortal para desatar uma verdadeira guerra civil na Venezuela, similar ao realizado contra o líbio Muammar al-Gaddafi, e agendaram o início da operação para este 23 de janeiro.
O plano do Pentágono até agora consiste em estimular a “briga de cachorros” entre os venezuelanos, a Fase 1 de uma estratégia que vem sendo aplicada há quase duas décadas, e que é seguida pelo assédio internacional, sanções e bloqueios. A Fase 3 é a da intervenção direta, por meio de mercenários ou forças militares de países vizinhos (como Colômbia e Brasil).
Porém, não aparece na Venezuela uma figura como a de Pinochet, já que as forças armadas não se forjaram exclusivamente por uma casta “muito refinada, imbuída profundamente nos valores da sociedade ocidental”, segundo definições do Comando Sul. E ninguém acredita que a oposição venezuelana possa vender ao país sua imagem de “heróis da liberdade”.
Álvaro Verzi Rangel é sociólogo venezuelano, codiretor do Observatório de Comunicação e Democracia, e colaborador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
*Publicado em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli
Fonte: Carta Maior
Edição: Mário Pires Santana

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são de responsabilidade de seus autores, e não refletem, de maneira nenhuma, a opinião do redator deste portal.