quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Agenda político-policial pode atropelar Previdência de novo

Por Helena Chagas, para Os Divergentes e para o Jornalistas pela Democracia
A agenda político-policial voltou com força esta semana, com os vazamentos da delação premiada da OAS e a disposição do ex-governador Sérgio Cabral de contar tudo – ou quase tudo – sobre o esquema de arrecadação de propinas montado no Rio de Janeiro. A rigor, os 21 nomes da OAS não trazem grandes novidades, e Cabral vem confirmando aquilo que já vinha sendo investigado e ele negava. Mas o impacto desses dois movimentos pode vir a ser enorme, e atropelar a pauta política, incluindo aí até o debate da Previdência.
Apesar do alto grau de renovação do Congresso nas últimas eleições, muitos dos nomes da lista da OAS estão no Legislativo e têm votos. Mais do que isso, até mesmo um importante articulador da reforma, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é citado sob a acusação de ter recebido R$ 50 mil no caixa 2 para sua campanha à prefeitura em 2012.
Outros nomes estrelados foram citados, de modo geral com valores bem
superiores ao que foi atribuído a Maia. Aécio Neves, Jaques Wagner, Nelson Pellegrino, José Serra e outros que têm mandato. Se as investigações começarem a produzir espuma e noticiário, o ambiente no Congresso poderá acabar contaminado, prejudicando os planos de aprovar a Previdência com celeridade.
A delação não premiada de Sérgio Cabral, que está ainda apenas no começo, já deixou muita gente de cabelo em pé nos três poderes e em todas as instâncias da federação. Movido provavelmente pela intenção de aliviar a situação da mulher, Adriana Alcelmo, e obter alguma redução de pena, Cabral está confirmando as acusações de recebimento de propina que antes negava, sem poupar os amigos. O sucessor Pezão e os ex-secretários Regis Fichtner e Marcelo Cortez foram os primeiros citados, mas Cabral promete mais, inclusive entregar integrantes do Judiciário.
Se realmente cumprir a promessa, haverá um enorme rebuliço no Congresso, e será inevitável a criação da CPI da Lava Toga, que por pouco não foi instalada no início da legislatura. Nesse cenário de poder investigando poder, é grande a chance de a discussão da Previdência também acabar atropelada.
*Helena Chagas é jornalista, foi ministra Secom e integra o Jornalistas pela Democracia.
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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