sábado, 23 de março de 2019

Bolsonaro pode provar do próprio veneno

Por Florestan Fernandes Júnior, para o Jornalistas pela Democracia
A pergunta que todos devem estar se fazendo hoje, menos de três meses após a posse do capitão, é por que, diabos, generais de alta patente embarcaram na campanha de Jair Bolsonaro? Todos tinham conhecimento do desequilíbrio emocional e da falta de estatura intelectual do candidato do PSL para a presidência da República. Todo o alto comando do Exército sabia dos motivos que levaram à expulsão de Bolsonaro da Escola de Oficiais.
Em 1988, o então tenente respondeu a 11 inquéritos no Supremo Tribunal Militar. Um deles era por ter proposto explodir bombas em quarteis do Exército no Rio para protestar contra os baixos salários das tropas. "Serão apenas explosões pequenas, para assustar o ministro. Só o suficiente para o presidente José Sarney entender que o Leônidas Pires Gonçalves (ministro do Exército na época) não e exerce nenhum controle sobre a tropa", disse uma esposa de oficial à repórter da Veja que fez a matéria sobre a ação nomeada de "Beco sem Saída". Na mesma reportagem, Bolsonaro diz: "temos um ministro incompetente e até racista".
Por conta da indisciplina, Bolsonaro ficou 15 dias preso. Foi para a reserva como herói das polícias do Rio. Seu discurso tosco encontrou ressonância não só nos quartéis, mas também nas empresas de segurança privada comandadas por policiais aposentados e ex-policiais que controlam as milícias nas periferias. Um apoio que ajudou a elegê-lo e também a colocar na política seus filhos e sua ex-mulher.
Pois bem, nesta carreira de quase 30 anos, o deputado federal Jair Bolsonaro apresentou apenas 2 projetos e ficou relegado ao grupo de parlamentares do chamado "baixo clero". Aparecia na mídia como um político excêntrico que chegava a propor absurdos como o de matar 30 mil pessoas começando por Fernando Henrique Cardoso.
Tudo leva a crer que setores das forças armadas pegaram uma carona na candidatura de Bolsonaro para retornar ao poder. Nenhum deles teve coragem de se lançar candidato numa campanha democrática, como fizeram no passado os generais Eurico Gaspar Dutra e Henrique Teixeira Lot. Se tivessem lançado um nome, não só fortaleceriam o processo democrático como teriam boas chances de ganhar a eleição.
Agora, a reboque de um capitão e de seus filhos sem projeto de governo, os oficiais da reserva se colocaram num mato com cachorros que mordem pra tudo que é lado. Em queda nas pesquisas de opinião, o capitão demostra aptidão apenas para fazer terrorismo através de fake news nas mídias sociais. Pior: ao se atrelar aos EUA e a Israel, Bolsonaro só pensa em fortalecer seu viés ideológico, mesmo que isso cause prejuízo aos setores produtivo e financeiro do país.
Na próxima semana, a Fiesp reunirá em torno do vice-presidente, general Hamilton Mourão, 500 empresários que querem soluções rápidas para a crise de governabilidade instalada no Planalto. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, afirma em entrevista ao Estadão que o governo Bolsonaro é um deserto de ideias.
Em sua coluna na revista Exame, Sérgio Vale, economista da USP e da universidade de Wisconsin, diz que o país não suportaria outro impeachment como saída para enfrentar o caos do governo Bolsonaro. Mas que numa tentativa de golpe ele apostaria suas fichas em Mourão.
Para afastar Bolsonaro existem várias situações que estão sendo colocadas na mesa: a abertura de uma CPI para apurar o envolvimento dele e dos filhos com as milícias do Rio, o afastamento justificado pela saúde debilitada do capitão ou ainda uma intervenção pura e simples dos militares nos moldes de 1964. Todas elas são péssimas para a democracia e podem levar a um estado de exceção que poderia resultar no endurecimento das liberdades e dos direitos dos cidadãos.
Seja qual for o caminho que os generais decidirem seguir, uma coisa é certa: eles terão o apoio da mídia tradicional, do setor produtivo e dos mercados. Tanto defendeu o golpe de 1964 que, agora, é bem provável que Bolsonaro experimente ele mesmo uma puxada de tapete.
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*Jornalista, escritor e integrante do Jornalistas pela Democracia
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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