domingo, 17 de março de 2019

Pais do Real e do Cruzado denunciam reforma da Previdência

POR *PAULO MOREIRA LEITE
A boa notícia para as entidades que preparam os protestos de 22 de março, início de uma grande mobilização popular contra a reforma da previdência maquinada por Guedes-Bolsonaro, é que o caráter ruinoso e anti-social das mudanças está cada vez mais difícil de esconder. Hoje em dia, não são apenas as lideranças de trabalhadores e do movimento popular que condenam a reforma. 
Vozes que atuam em outros polos do debate econômico, que têm outra visão de mundo, e um ponto de vista diferente obre muitos assuntos importantes da economia, e da política, inclusive sobre os governos Lula-Dilma, estão engrossando o coro de críticos da reforma. Um deles é João Sayad, um dos principais criadores do Plano Cruzado, de José Sarney, ministro e homem de confiança em várias administrações do PSDB, resolveram comprar a discussão publicamente, mostrando que a reforma só irá agravar a miséria e a pobreza do país. Em artigo (Valor, 15/3/2019), Sayad compra o debate em linguagem de
economista e bate fundo no projeto de Guedes-Bolsonaro: "a reforma é direcionada apenas para a redução do déficit e deixa de lado o objetivo da previdência. Pretende apenas diminuir os benefícios e aumentar as contribuições, ou seja, reduzir o deficit. Mas e os objetivos da Previdência, o amparo da população mais velha, do desempregado?"
João Sayad não está só na crítica. Em artigo, ele reconhece ter-se inspirado no economista chamado de Pai do Real, André Lara Rezende. Cérebro econômico de influência em debates que acompanharam o ninho tucano ao longo de duas décadas, Lara Rezende condena os fundamentos da reforma. Denuncia a tese de Paulo Guedes de que os cortes nos gastos e a redução no déficit irão permitir a retomada do crescimento. Uma semana antes de Sayad, André Lara Rezende publicou texto onde identifica o guru econômico de Bolsonaro como representante de um saber ultrapassado, que chama de "velho consenso". Ele escreve: " O velho consenso exige o corte de despesas, a venda de ativos estatais, a reforma da Previdência e o aumento dos impostos, para reverter o déficit público e estabilizar a relação dívida/PIB. É o roteiro do governo Bolsonaro sob a liderança do ministro Paulo Guedes", conclui, para dizer, desconsolado: "o equívoco vem de longe". 
Nesse ambiente no qual não consegue convencer círculos com audiência nos mercados e junto ao empresariado brasileiro, a equipe Paulo Guedes-Bolsonaro prepara uma cena de circo para vencer o descredito e sair do isolamento -- a reforma da aposentadoria dos militares.
O efeito que se busca é banal. Sem o menor interesse em proteger a velhice dos mais pobres, pretende-se exagerar eventuais perdas de parcelas efetivamente privilegiadas para esconder o sacrifício real da maioria, de quem Paulo Guedes pretende arrancar R$ 1 trilhão, entregando as magérrimas economias dos trabalhadores para o banquete da capitalização individual a ser administradas pelo bancos privadas.
A prioridade atual de 210 milhões de brasileiros e brasileiras é outra. Não envolve debater a aposentadoria de militares, nem do judiciário, nem da alta burocracia do estado. Por mais graves que sejam suas distorções, a reprodução das desigualdades, do privilégio e, em alguns casos, da pura indecência, neste momento a questão essencial e desesperadora é outra. Derrotar um projeto que, do ponto da maioria dos brasileiros, pretende destruir o objetivo de todo sistema de Previdência criado na história da humanidade no final do século XIX: garantir amparo e renda na velhice.
Nesse ambiente, a manutenção da desigualdade e dos privilégios oferecidos aos militares, que a reforma militar não pretende eliminar, ajuda a desmascarar a hipocrisia de um discurso enganador. Mas não constitui o problema principal.
O aspecto daninho, inaceitável da reforma, O problema é seu projeto geral, que terá como resultado inevitável a elevação da desigualdade e da pobreza. Este é o ponto, que justifica todo reforço às mobilizações de 22 de março. Ao "diminuir os benefícios e aumentar contribuições," como escreveu Sayad, o plano é fazer o povo pagar mais, trabalhar mais e ganhar menos. 
Alguma dúvida?
*Colunista do 247, ocupou postos executivos na Veja e na Época, foi correspondente na frança e nos EUA.
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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