sexta-feira, 12 de abril de 2019

O Teatro do Absurdo

POR *FLORESTAN FERNANDES JR.
A Democracia no Brasil nunca mais será a mesma depois desse terremoto provocado pela chegada da extrema-direita ao poder. Ainda não é possível afirmar se para melhor ou pior. A ruptura com o modelo do presidencialismo de coalizão parece inevitável. O atual governo tem desprezado instituições que são os pilares da democracia brasileira, como os partidos, o Legislativo, o STF e os grandes meios de comunicação.
Por Brasil 247

Nas últimas décadas, assistimos a uma repetição de um modelo que sobrevivia ancorado numa política do toma-lá-da-cá, da qual a própria direita e extrema-direita hoje no poder eram beneficiárias. Em uma conversa na casa do professor Roberto Schwarz, perguntei ao crítico literário por que PT e PSDB não se compunham nos parlamentos para não ficarem reféns de composições fisiológicas. Para Schwarz, os dois partidos, que chegaram a subir no mesmo palanque no segundo turno em algumas eleições, não tinham o menor interesse
em se unir. Era justamente a oposição ao outro que garantia a alternância entre eles. Dessa maneira, direita e extrema-direita não tinham espaços: ou compunham com o governo do momento ou perderiam seus parlamentares para outras legendas da base governista. É a lei da sobrevivência baseada no presidencialismo de coalização.
Apesar de controlarem alguns governos estaduais importantes, PT e PSDB continuam olhando um para o outro através das lentes de um binóculo. Mesmo estando os dois fora do atual governo não sabem como unir forças. As fissuras são muitas. E a ala histórica do tucanato, ainda tida como social-democrata, está envelhecida, titubeando entre ser satélite do bolsonarismo ou ir para a oposição aberta, correndo o risco de desaparecer. Os progressistas, que ainda contam com a simpatia de boa parte do eleitorado, não conseguiram formar uma frente consistente para enfrentar a desordem institucionalizada do governo do capitão. Falta ressuscitar o centro. Onde estão os novos Ulisses Guimarães e Teotônio Vilela? A extrema-direita está sozinha no salão, deixando um espaço imenso a ser ocupado pela oposição. E se ela demorar ficará a reboque dos acontecimentos. E isso não é bom para ninguém, muito menos para o país. A pergunta que me faço hoje é: como retrocedemos tanto em tão pouco tempo? Tenho um palpite. Acredito que todo o processo que levou milhões de pessoas para as ruas não é fruto do acaso. Foi tudo muito bem elaborado e planejado, dentro e fora do país.
Para o governador Flávio Dino, que foi juiz criminalista por 15 anos, não existe na história da Justiça Criminal nenhuma operação tão cronometrada e desencadeada com a precisão de um relógio suíço como a Lava Jato. 
Para ele, tudo leva a crer que esse processo investigativo e judicial começou com suas metas estipuladas bem antes de a operação ter início em 2014. Essa tese faz todo o sentido. 
Prisões de empresários foram feitas em sequência, e estes só foram soltos após fazerem delações premiadas, geralmente sem nenhuma prova material. Emissoras de rádio e televisão, concessões públicas distribuídas principalmente pelo regime militar, escandalizaram essas delações, dando a elas uma legitimidade que não tinham. A partir daí foi fácil mobilizar multidões pelo impeachment sem amparo legal de uma presidenta legitimamente eleita. 
Os bonecos infláveis de Lula vestido de presidiário reforçam o pré-julgamento e a condenação que viria logo depois por parte do juiz Sérgio Moro, sem qualquer prova material, mas amparado apenas em "convicções". 
Aliás, o próprio ministro Paulo Guedes, das hostes bolsonaristas, foi enfático ao dizer que Lula "não roubou nenhum tostão". Não bastasse isso, Moro ficou numa posição ainda mais suspeita ao aceitar fazer parte da equipe de governo do capitão, principal beneficiário da prisão de Lula e de seu afastamento do processo eleitoral.
O incrível é que os ingênuos tucanos apostaram contra a democracia ao votar e defender o afastamento de Dilma Rousseff e muitos ficaram até felizes com a prisão de Lula. 
Não imaginavam que os tiros da Lava Jato teriam eles como as próximas vítimas. 
Fica claro que o script já estava escrito e nele o gran finale excluía o centro e a esquerda, deixando o palco apenas para os personagens de direita e extrema-direita, que saíram do armário empoeirado da ditadura militar. 
A plateia dividida entre aplausos e vaias continua esperando Godot que no Brasil teima em não chegar. É o teatro do absurdo.
*Florestan é Jornalista, escritor e e integrante do Jornalistas pela Democracia
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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