segunda-feira, 20 de maio de 2019

Descobertas científicas importantes no litoral do Piauí

POR *FRANCISCO SOARES
Apesar do Governo Federal está anunciando cortes e da Universidade Estadual do Piauí viver uma triste história de cortes. Apesar de já estarmos no mês de maio e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI) não ter lançado nenhum edital para financiamento de pesquisas (para efeito de comparação a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Maranhão – FAPEMA já lançou 10 editais este ano), a pesquisa aqui no Piauí não parou. Não parou porque, ao contrário do que pregam os que desconhecem a realidade nas universidades, professor universitário que tem responsabilidade e compromisso continua trabalhando, esperando tempo bom. Mas apesar de tudo isso, temos novidades!!!
Recentemente foram feitas duas descobertas interessantes por pesquisadores do Núcleo de Ficologia do Instituto de Botânica (IBot) da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) associados com a Profa. Dra. Maria Gardênia Sousa Batista, do curso de Ciências Biológicas, Centro de Ciências da Natureza (CCN) do Campus Poeta Torquato Neto da Universidade Estadual do Piauí (UESPI). A falta de infraestrutura adequada para pesquisa é compensada pela rede de contatos entre pesquisadores. As instituições mais fortes favorecem parcerias que culminam com descobertas como estas que vou descrever.
A primeira foi a descoberta de uma nova espécie de alga do grupo das Rodófitas
(algas vermelhas). Trata de uma pequena alga incrustante do gênero Rhodachlya. É a primeira vez que uma espécie do grupo das Rhodochlyales é encontrada no Oceano Atlântico. Até o nome ser aceito está sendo tratada como Rhodachlya sp. nov. As espécies mais próximas dela são do Oceano Pacífico (R. hawaiiana) e do Oceano Índico (R. madagascariensis). A descoberta se deu usando a Biologia Molecular como ferramenta, uma vez que foram comparadas informações genéticas do gene rbcL dos plastídios destas algas. Como a divergência da sequência chegou em cerca de 10% da primeira espécie analisada para o gênero - R. madagascariensis – e os pesquisadores encontraram grandes diferenças morfológicas pelo fato das amostras estarem em bom estado, decidiu-se por descrever como uma nova espécie.
Alga vermelha: uma nova espécie do Gênero Rhodachlya, encontrada na Praia da Pedra do Sal, Piauí. Crédito: Soares et al.
A outra descoberta foi de outra espécie de alga vermelha, desta vez de um gênero muito raro, denominado Madagascaria. Este gênero é monotípico, ou seja, apresenta uma única espécie, no caso Madagascaria erythrocladioides. De acordo com as autoras da pesquisa esta alga só tinha sido encontrada no Oceano Índico, na região da Ilha de Madagascar e no Japão. As pesquisas seguiram a mesma metodologia da que descobriu a outra alga, usando a Biologia Molecular com comparação do gene rbcL dos plastídios. Mas as diferenças não foram muito grandes quando comparadas com a espécie-tipo de amostras de Madagascar (2,4% de divergência) e do Japão (6,9% de divergência). A ausência de elementos que robustecessem a possibilidade de que o exemplar encontrado fosse considerado uma nova espécie sugeriram aos pesquisadores que apenas anunciassem como o registro geográfico novo, de uma alga que sequer já fora registrada para o Oceano Atlântico.
Alga vermelha do Gênero Madagascaria, registrada pela primeira vez no Oceano Atlântico. Crédito: Soares et al.
Os artigos com as duas descobertas foram encaminhados para as revistas Phycologia e Aquatic Botany, consideradas entre os mais importantes periódicos científicos da área de Ficologia (a ciência que estuda as algas). As duas pesquisas tiveram como autoras as Doutoras Luanda Pereira Soares (IBot-SP), Sílvia M.P de Beauclair Guimarães (IBot-SP), Mutue Toyota Fujii (IBot-SP), Yocie Yoneshigue-Valentin (IB-UFRJ), Maria Gardênia de Sousa Batista (CCN-UESPI) e Nair S. Yokoya (IBot-SP).
A alga recém-descoberta é filamentosa que cresce como epífita das algas maiores e a que foi encontrada pela primeira vez no Oceano Atlântico é do tipo incrustante (crescem incrustadas em algas calcáreas), e foram coletadas na Praia da Pedra do Sal em Parnaíba (PI), na primeira expedição do infralitoral com coletas feitas através de mergulhos.
Gol das pesquisadoras de algas. Gol da pesquisadora da UESPI, que mesmo sem apoio, continua trabalhando.
Boa semana para todos (as) e até a próxima!
*FRANCISCO SOARES SANTOS FILHO é piauiense de Teresina, casado e pai de 04 filhos. Professor há mais de 30 anos em escolas tradicionais e atualmente leciona nas duas universidades públicas. Biólogo com Mestrado e Doutorado em Botânica, estudou a vegetação litorânea do Piauí. É autor de livros, artigos e materiais instrucionais. Escreve sobre diferentes temas de Ciência, Tecnologia, Meio Ambiente e Educação e quer contribuir com a popularização da ciência. Viva a Ciência! Ciência, Viva!
Fonte: cidadeverde.com
Edição: Mário Pires Santana

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