quinta-feira, 30 de maio de 2019

Pacto de Bolsonaro compromete Dias Toffoli

POR *RIBAMAR FONSECA
E os amarelinhos voltaram às ruas, desta vez para apoiar as reformas do governo Bolsonaro e pedir o fim da democracia, com o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Foram os mesmos que, manipulados pelo MBL e tangidos como gado, saíram às ruas anos antes para protestar contra o governo Dilma Rousseff. 
E financiados pelas mesmas organizações e empresários da extrema direita, não faltando bandeiras, carros de som e faixas e cartazes de apoio ao capitão-presidente que, apesar de ter convocado a manifestação, declarou candidamente que ela foi "espontânea". Imbecilizados pelo massacre nas redes sociais, parecendo zumbis sem direção, não faltou quem fosse entrevistado pela Globo para elogiar o "bom governo" do capitão. A Globo, como sempre, fez o seu papel de apoio ao governo, mesmo marginalizada pelo presidente, que a classificou como "inimiga", certamente na esperança de ainda conseguir alguma verba oficial mais gordinha, porque a sua situação financeira não parece das melhores.
As manifestações não chegaram a surpreender, porque muito aquém do esperado, apesar da convocação oficial – até com faixas em caminhões do Exército – e do investimento dos empresários extremistas, mas foi o
suficiente para mostrar que o número de fascistas cresceu no país. 
Ou o número de abestados. Porque é impossível acreditar que aquele pessoal
que saiu às ruas, vestido de amarelo, está satisfeito com o aumento do desemprego, o aumento do gás e da gasolina, o corte nos recursos da Educação, o incremento da violência com a liberação da posse de armas, a destruição da nossa soberania, a subserviência aos Estados Unidos, a privatização da Previdência, a entrega do nosso petróleo, etc. E o mais pitoresco: Bolsonaro convidou os presidentes do Congresso e do Supremo para a realização de um pacto, a fim de atender "às reivindicações dos manifestantes". Ou seja, as suas, entre elas a reforma da Previdência, para dar lucro aos bancos, e o pacote anti-crime, que legaliza a licença para matar. Agora, cabe uma pergunta: o que o presidente do STF, Dias Toffoli, tem a ver com esse pacto, já que o Supremo não é uma instituição política?
Na verdade, parece estranho que o presidente da Suprema Corte volta e meia esteja reunido com o capitão-presidente, em cafés ou almoços, não recusando nenhum convite para esses convescotes. 
Bolsonaro, com esses encontros, está conseguindo envolver tanto Toffoli como os presidentes da Câmara e Senado, que tentam posar de independentes para a plateia, e, desse modo, alcançar os seus objetivos. Aquelas brigas nas redes sociais não passam de jogo de cena para enganar os trouxas. Toffoli, aliás, até hoje não reagiu às ameaças de fechamento do STF, inclusive feitas pelos filhos do presidente, nem mesmo às dos manifestantes de domingo. 
Ao contrário, tem se comportado como um dócil assessor do capitão-presidente, sempre ao lado dele aparecendo em fotos muito sorridente. É evidente a estratégia de Bolsonaro para envolver os presidentes do Congresso e do Supremo com esses rega-bofes, o que se revela uma manobra inteligente para alcançar seus objetivos. Resta saber, porém, quem estaria por trás do capitão-presidente, instruindo-o, pois todo mundo sabe que inteligência não é o seu forte.
Ninguém sabe precisamente o que foi tratado no rega-bofe no Palácio da Alvorada, mas ninguém tem dúvidas de que a reforma da Previdência, o pacote anti-crime e a privatização de estatais estiveram em pauta. É natural que Bolsonaro tente garantir o apoio dos presidentes do Congresso para a aprovação de suas propostas, mas o que o presidente do STF, Dias Toffoli, estava fazendo lá? Ele não tem nenhuma participação na votação das matérias de interesse do governo. Suspeita-se, diante disso, que a sua presença nesses encontros teria como objetivo assegurar ao governo decisões favoráveis no julgamento de ações sobre matérias do seu interesse. A se confirmar semelhante suspeita, fica comprometida a atuação de Toffoli nos julgamentos da Suprema Corte, desmoralizando-a de vez. Aliás, todo mundo estranhou a velocidade com que o presidente da Corte pautou o julgamento, pelo plenário, da liminar do ministro Edson Fachin que proibiu a venda de ativos da Petrobrás. Por que tanta urgência? O fato é que depois dessa estranhíssima proximidade do ministro-presidente com o capitão-presidente todo mundo vai ficar de olho no seu voto.
Vale recordar que no governo Temer o ministro Gilmar Mendes se tornou comensal do presidente golpista, assíduo frequentador da sua casa, mas agora o caso é muito mais grave: o novo comensal do novo presidente da República é justamente o presidente da Corte Suprema. Qual a justificativa aceitável para esse comportamento suspeito. O fato é que Bolsonaro conseguiu uma proeza até então inédita na história do país: parece que hoje ele tem o controle dos três poderes, além da Globo, esta mantida em rédea curta. Tem-se a impressão de que o capitão-presidente, com esse jeito autoritário e ameaçador – contando, obviamente, com a costa larga dos militares – intimidou os outros poderes, cujos presidentes se mostram obedientes às suas determinações. 
No fundo, é uma ditadura mascarada pelo funcionamento do Congresso e do Supremo, ambos enquadrados na nova ordem. Quem será, verdadeiramente, o conselheiro do capitão-presidente? Não pode ser o astrólogo que, além de ter o pavio curto, está no mesmo patamar de inteligência do capitão. Então, quem será?
*Jornalista e escritor
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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