segunda-feira, 8 de julho de 2019

A morte beija a mão de nosso senhor Simplício Dias

Por *Pádua Marques

Corria um vento levantando folhas secas de cajueiro vindas do rumo do Macacal, da cocheira do Ioiô Pires e do Testa Branca naquele dia 17 de setembro. Simplício Dias ia morrer daqui a pouco sem muita gente por perto e sem a pompa reservada aos principais. Pouca gente havia na rua Grande e lá embaixo no cais do Porto Salgado, mas se via na esquina e na entrada de sua casa de morada um movimento de entra e sai de gente da igreja e alguns poucos conhecidos. Era assim desde a véspera. 
Pois na véspera pela manhã Elias veio lhe dizer que umas mulheres da vida queriam ver o benfeitor e lhe pedir a benção já no leito de morte. Dona Isabel Thomásia achou aquele pedido fora de sentido. Uma falta de respeito! Mas por insistência do criado acabou aceitando. Vieram umas seis, muito pias, silenciosas, cabeças cobertas de véu. Simplício até que podia ser perverso, mas nunca perseguiu as raparigas lá embaixo no Porto Salgado e nos Tucuns. A casa há dias já estava vazia e silenciosa, aquele silêncio de casa onde acaba de sair um enterro. Elias estava se sentido só. Olhando com cuidado seu senhor naquela cadeira, próximo da rede e de um penico, Simplício estava com as canelas finas terminando nos pés dentro de um chinelo de couro gasto saindo por baixo do chambre de tecido ruim, os olhos encovados, a cabeça de antes cabelos carapinhos e cor de cobre, agora estava ficando careca. O escravo de confiança lembrava ali perto dele os dias em que precisou ter coragem.
Quantas e quantas vezes a morte veio de tudo quanto era lado e de jeito, faca, pistola, espada. Simplício venceu todas elas, mas agora não tinha como. Ia morrer. Não levava nada desta vida. Nem o ouro, as pratarias, a louça de porcelana inglesa, as joias valiosas da mulher, das filhas e da igreja feita pelo pai Domingos e que os portugueses de Fidié levaram um dia quando invadiram a Parnaíba e que depois foram devolvidas. Voltou pouca coisa, não tudo. Os móveis, o cofre com os poucos tostões da antiga fortuna.
 Morreu Simpilição! Simpilição morreu! Foi o que se ouviu no largo da igreja e na rua da casa de morada do dono da Parnaíba naquele meio de tarde. Um negro passou a gritar no rumo dos Tucuns e logo a notícia foi se espalhando pelo Nova Parnaíba, Guarita, Pindorama, Santa Luzia, Macacal, Floriópolis, Carmo. Tão logo ficaram sabendo, muitos escravos vieram correndo em pranto de choro rezar na igreja do Rosário. Muita gente espantada com aquela notícia. Morreu Simpilição! No Porto Salgado, entre a gente das embarcações atracadas e nas calçadas de armazéns, de repente ficou mais parecendo a Sexta-feira da Paixão. Aquela gente sem nada pra fazer passou a ir pras portas das vendas e ficou bebendo aguardente, fumando, achando graça com a mão na boca e até fazendo lorotas com o nome do morto. De noite por fim quando se soube da morte em toda a vila, de ponta a ponta, ninguém mais fez nada nos barcos. 
Morreu o Simpilição! Se acabou o Simpilição da Parnaíba! E assim já no outro dia, antes de o sol andar quase no meio do céu indo morrer atrás das carnaubeiras de Ilha Grande de Santa Isabel, veio a gente pra o largo da casa de morada do governador da Parnaíba. Uns falando das qualidades e da valentia como soldado. Lembranças de seus méritos, a caridade com uns poucos, lealdade e depois a rebeldia com o imperador dom Pedro I e o tino de comerciante, mesmo tendo perdido dinheiro com a insistência de vender carne seca pra Europa quando lá se consumia há tempos linguiça e salsichas da Alemanha, o sumiço da fortuna com um luxo fora de propósito e as mortes do pai Domingos e do irmão Raimundo. 
Mas no meio daqueles que se apinhavam na frente do Armazém Paraíba e lá mais longe no Elizeu Martins, Cartório Bezerra, Colégio Dez e a Lanchonete do Farias, tinham aqueles que o renegavam e até desejavam que sua alma estivesse àquela hora no inferno. Morreu Simpilição! Morreu, morreu Simpilição da Parnaíba...
*Jornalista, escritor, articulista, contista, cronista, membro do IHGGP e APAL  
Edição: Mário Pires Santana

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