quarta-feira, 10 de julho de 2019

A múmia que dormiu na casa de Simplício Dias na Parnaíba

Por *Pádua Marques

Já era boca da noite quando o escravo Elias entrou pela porta dos fundos da casa de Simplício Dias naquele sábado de julho de 1824 pra avisar sem mais tardança que o capitão de um navio francês insistia em falar com o governador da Parnaíba sobre a chegada de uma encomenda que por certo haveria de interessar, uma múmia egípcia. 
Simplício naquele momento ao saber da chegada de Elias com noticia de que havia coisa grave ocorrendo no cais, tratou logo de chamar o negro a um canto. O navio francês, Le Prince de Bourbon, comandado por Emile Bornett, vindo do Egito e com escala no Marrocos, havia aportado em Tutoia a caminho de São Luiz e pedia permissão pra entregar uma encomenda ao coronel Simplício Dias da Silva. E a encomenda, dada o valor e sendo coisa de chamar atenção, não poderia ser desembarcada em plena luz do dia. Simplício mandou o negro de volta com a ordem de que o desembarque da múmia seria pela madrugada antes da mudança de maré e com pouca gente por perto. Deu ordens a Elias de que reunisse logo uns quatro homens de sua confiança pra aquela faina. Havia comprado através de um negociante grego no Cairo aquela que seria a joia da sua loja, a múmia de uma criança, com o que pretendia abrir uma casa com mercadorias do Oriente na Parnaíba.
Pela madrugada os negros chegaram sem fazer barulho e tendo Elias como guia e encarregado do serviço foram depois no rumo do Porto Salgado pra desembarcar a múmia e guardar no prédio da esquina. Deu tudo certo. A madrugada com pouco movimento no cais e o silêncio do outro lado da Ilha de Santa Isabel fizeram com que dentro de pouco menos de meia hora aquela que seria a peça mais valiosa da loja de antiguidades estivesse guardada no armazém. 
Simplício, tamanha a curiosidade pelo objeto comprado do Egito, mal dormiu naquela noite e na madrugada. Dia nascido, bem a criadagem de pé e mandou Elias abrir o armazém na parte de baixo do prédio da esquina. Queria ver com aqueles olhos que um dia a terra haveria de comer, uma peça da história da humanidade e que só ele e seu dinheiro podiam comprar. 
Seria admirado e temido por toda a região, em São Luiz, Recife, Rio de Janeiro. Finalmente se vingava da ingratidão de dom Pedro I por não ter aceitado seu presente, para as filhas, as princesas Januária, Paula e Francisca, um cacho de bananas feito de ouro maciço e com pedras de rubi nas pontas! Se vingava por estar sendo agora perseguido e sendo acusado de tramar a queda do Império. Os dias, cinco de uma semana, foram passando e a loja da esquina sempre fechada começou a chamar a atenção. 
Certa noite, já entrando em agosto, Elias foi na ponta do pé ver como estava a carga, uma peça belíssima de madeira e ornada com cenas de batalha. Foi ver, mas sem o direito de chegar perto e de tocar. Tinha o tamanho de menos de uma braça. Viu a peça e do jeito que entrou calado e se pelando de medo, foi saindo. Apenas Simplício e ele sabiam do que se tratava. Quando saiu na porta do armazém na esquinada da rua Grande, por volta de umas duas horas, achou de tanger um cachorro que dormia enrodilhado. O bicho nem se mexeu. Pegou um pau e fustigou de novo. Nem a pau. Nesse momento lá embaixo no cais uma sineta tocou duas vezes. Com aquele sinal Elias se arrepiou dos pés à cabeça. 
Saiu olhando pra os lados em direção dos fundos e foi se aquietar. Mais daqui a pouco haveria de já estar de pé antes que Simplício acordasse. Era lei e ele tinha que cumprir. Mas quando na volta passou pelo cachorro viu que estava morto. Tratou de tirar aquela coisa dali antes de amanhecer. Lá pelo meio do dia foi chamado pelo capitão do porto, Sebastião de Seixas. Dois negros que haviam levado nas costas a encomenda pra o governador Simplício Dias da Silva naquela madrugada, estavam mortos. 
Morreram escumando pela boca e se coçando sem que nada desse jeito. Não tinha sido nada de briga entre eles ou coisa de comer. E assim começaram a aparecer e acontecer outras coisas dignas de se meter na cabeça de que aquela múmia trazia coisa ruim pra dentro de casa. Simplício começou a ficar encasquetado com tanta coisa acontecendo dentro de sua casa. 
Aquele cachorro, agora dois negros da estiva mortos sem causa, uma sua sobrinha caiu da escada e quebrou as costelas, o armazém ficou de uma hora pra outra infestado de ratos e de morcegos. Sem dar ciência à família e aos amigos, ao chefe de polícia, noutra madrugada Simplício Dias da Silva mandou que pegassem aquele troço e jogassem ou queimassem bem longe. Mas com medo de se repetir com ele o ocorrido com os negros estivadores, Elias acabou foi jogando no barranco do Porto Salgado no lado contrário a alfândega.
*Jornalista, escritor, cronista, articulista, membro do IHGGP e da APAL
Edição: Mário Pires Santana

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