segunda-feira, 15 de julho de 2019

''Eles podem matar um jornalista, mas não podem parar a informação'', diz Glenn Greenwald

Por Mariana Serafini 
Quem viu um pequeno bote atravessar o rio Perequê-Açu na noite da última sexta-feira (12) em Paraty não poderia imaginar que a bordo estava o jornalista mais temido pelo establishment neste mento no Brasil, Glenn Greenwald. À margem esquerda, mais de cinco mil pessoas enfrentaram uma brisa gelada para ouvir o fundador e editor do Intercept Brasil falar sobre o papel do jornalista na defesa da democracia. Do outro lado, pouco mais de 40 manifestantes vestidos com camisetas verde-amarelas estampadas com o rosto de Bolsonaro tentavam censurar o debate promovido pela Flipei, a feira dos editores independentes dentro da Flip, a maior festa literária do país. Na “batalha do Perequê-Açu” venceu quem está do lado certo da história. 
Os dias que antecederam o debate com Glenn, Gregório Duvivier, Sabrina Fernandes, Alceu Castilho e Sergio Amadeu foi marcado por tensão. Um grupo da direita paratiense anunciou na imprensa local que impediria a chegada do jornalista americano à cidade porque “Paraty não vai se tornar um antro comunista". Eles tentaram fechar os caminhos, intimidar os profissionais da imprensa e o público com ameaças. Mas as tentativas de bloquear os principais acessos não tiveram êxito, Glenn chegou de bote e foi recebido de braços abertos, ao som de Bella Ciao, por um público disposto a enfrentar os fascistas para defender o Brasil e a democracia. 
Esta foi a primeira aparição pública de Glenn desde o começo dos vazamentos do Intercept. Muito à vontade, ele conversou com o público sobre o papel do jornalista no processo de fortalecimento da democracia em tempos de crise. Sem titubear, garantiu que Sérgio Moro deve sim sentir medo porque o material que ele tem em mãos está “muito mais perto do começo que do final”. E apesar das ameaças que vem recebendo, o jornalista disse que não se sente intimidado, não sairá do Brasil e conta com o apoio de quem está do lado da verdade. “Eles podem prender um jornalista, podem matar outro, mas não podem parar a informação”, disparou. 
Para Glenn, Moro foi um dos maiores inimigos da democracia no Brasil, nos últimos tempos. O juiz agiu com parcialidade para tirar Lula da disputa eleitoral de 2018 e fomentar o processo de impeachment contra Dilma Rousseff. “Quando este juiz vazou o áudio entre Lula e Dilma de forma criminosa, ele foi importante para o golpe”. 
Glenn acredita que jogar luz sobre as irregularidades da Lava Jato com os vazamentos publicados pelo Intercept serve para fortalecer a luta contra a corrupção - e não enfraquece-la - uma vez que desmascara o conluio do Juiz com os procuradores e a Polícia Federal. “É claro que eu sou a favor do combate à corrupção, mas isso não pode ser feito defendendo um grupo de corruptos. O mais importante para uma democracia é a informação pautada na verdade”. 
“Se queremos uma democracia é necessário ter diálogo porque a outra opção é a violência. E muitos votaram no Bolsonaro não porque são fascistas, mas porque estavam desesperados com a crise em que o Brasil foi lançado. No entanto, o Brasil que eu conheci há 15 anos atrás e me apaixonei não é um país fascista, precisamos mostrar a verdade para estas pessoas”, disse o jornalista americano. 
Segundo Glenn, os jornalistas comprometidos com a verdade podem contribuir para defender a democracia neste Brasil com instituições extremamente fragilizadas após o golpe de 2016. Para além disso, é necessário converter os traumas em motivação para avançar. “O assassinato de Marielle Franco, que era minha amiga, amiga do meu marido [o jornalista é casado com o deputado David Miranda do Psol-RJ com quem tem dois filhos adotivos] me abalou muito, mas a raiva que eu senti por este crime se transformou em determinação para defender o Brasil”. 
Os manifestantes de verde-amarelo tentaram durante as quase duas horas de debate impedir que os palestrantes falassem. Para isso, tocaram música com um volume ensurdecedor - uma delas foi um funk do Hino Nacional - e gritaram palavras de ordem, especialmente durante as falas de Glenn. Ainda tentaram intimidar os palestrantes com rojões lançados em direção ao barco que serviu de palco; para amedrontar o público, atearam fogo perto de onde acontecia a atividade. “Não devemos sentir medo, o medo nos paralisa e é exatamente isso que eles querem. Mas nós temos a verdade e qualquer poderoso pode ser derrotado quando nós nos unimos para defender a verdade e nossos direitos”, garantiu o jornalista americano para tentar reestabelecer a calma no momento em que o público começou a se levantar tomado pelo pânico dos ataques. 
O evento integrou a ampla programação da Flipei, a feira paralela de editores independentes na Flip. O palco das atividades é um barco-livraria onde quase 30 editoras independentes - entre elas Autonomia Literária, Boitempo e Ubu - oferecem ao público livros de teoria política, filosofia e literatura, além de quadrinhos. Diferente da festa literária oficial, na feira independente todas as atividades são abertas e gratuitas.
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Fonte: Carta Maior
Edição; Mário Pires Santana

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