sábado, 6 de julho de 2019

Morre João Gilberto, pai da bossa nova e lenda da música brasileira, aos 88 anos

Artista baiano redefiniu a música brasileira com batida revolucionária de seu violão.
Do O Globo
João Gilberto em show no Parque Ibirapuera, em 1992 Foto: Heitor Hui / Agência O Globo
RIO - Responsável por uma revolução na maneira de cantar e tocar violão que mudou tudo na música brasileira, João Gilberto morreu neste sábado, 6, aos 88 anos. A causa da morte ainda não foi divulgada. Ele deixa três filhos, João Marcelo, Bebel e Luisa.
Nos últimos dez anos, aquele João Gilberto ícone da bossa nova foi aos poucos perdendo espaço para um personagem complexo. A decadência física, as questões de família, os problemas de dinheiro, os contratos mal feitos, enfim, um conjunto de episódios graves acabou soando mais alto do que o talento de um artista tão grande.
Grande e único. Graças a ele, a bossa nova se consolidou e a música brasileira teve portas abertas para conquistar seu lugar no mundo. A brilhante geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque não teria ido tão longe se não fosse a inspiração de "Chega de saudade", disco que João lançou em 1958. 
São muitos os capítulos desta história. Primeiro, o do adolescente que cantava coisas do rádio no alto-falante da Praça da Matriz de sua cidade, Juazeiro (BA). Depois, o jovem que foi para Salvador sonhando em se profissionalizar.
João Gilberto fotografado por sua neta, Sofia, em foto divulgada esta semana Foto: Sofia Gilberto/Acervo familiar
Em seguida, a ida para o Rio como crooner do grupo vocal Garotos da Lua. Não deu certo. Demitido por faltar aos compromissos, ele tentou outros caminhos, gravou um disco que não aconteceu, chegou a participar de show de Carlos Machado, passou por maus pedaços no Rio, sem casa, sem trabalho, sem perspectiva. O cantor dessa fase é fã de Orlando Silva, tenta cantar como ele, mas fracassa. 
De 1955 a 1957, não se ouviu mais falar em João Gilberto no Rio que o rejeitara. São os dois anos que ele passa em Porto Alegre, Diamantina e, por menos tempo, na casa dos pais em Juazeiro. Quando volta ao Rio, é outro homem, outro artista.
Em seguida, a ida para o Rio como crooner do grupo vocal Garotos da Lua. Não deu certo. Demitido por faltar aos compromissos, ele tentou outros caminhos, gravou um disco que não aconteceu, chegou a participar de show de Carlos Machado, passou por maus pedaços no Rio, sem casa, sem trabalho, sem perspectiva. O cantor dessa fase é fã de Orlando Silva, tenta cantar como ele, mas fracassa. 
De 1955 a 1957, não se ouviu mais falar em João Gilberto no Rio que o rejeitara. São os dois anos que ele passa em Porto Alegre, Diamantina e, por menos tempo, na casa dos pais em Juazeiro. Quando volta ao Rio, é outro homem, outro artista.
Consta que, durante ao seis meses em que morou com a irmã na cidade mineira, não saiu de casa, pouco falou, dia e noite abraçado ao violão em busca de ritmos e harmonias que acabariam dando forma definitiva a um estilo que logo seria visto por outros músicos como novo, quando não revolucionário. Novo estilo, nova bossa, bossa nova.
VEJA IMAGENS DA CARREIRA DE JOÃO GILBERTO
O cantor João Gilberto, 88 anos, em apresentação no Teatro Municipal do Rio - 24/08/2008 Foto: Leo Aversa/Agência O Globo 
O cantor João Gilberto, 88 anos, em apresentação no Teatro Municipal do Rio - 2João Gilberto com Caetano Veloso em apresentação no Credicard Hall em São Paulo, no show de inauguração da casa de espetáculo - 30/09/1999 Foto: Luiz Carlos Santos / Agência O GloboOs cantores João Gilberto e Caetano Veloso no Credicard Hall em São Paulo - 30/09/1999 Foto: Luiz Carlos Santos / Agência O GloboApresentação do cantor João Gilberto no Teatro Alfa Real - 26/04/1998 Foto: Sérgio Andrade / Agência O GloboJoão Gilberto em gravação do programa Som Brasil, no Metropolitan - 11/04/1995 Foto: Ari Lago / Agência O Globo
João Gilberto se apresenta no Teatro Municipal para 1,6 mil convidados - 07/12/1992 Foto: Leo Aversa / Agência O GloboCantor João Gilberto, pioneiro da bossa nova Foto: Dario Zalis / Agência O GloboShow de João Gilberto na inauguração da casa de show Tom Brasil, em São Paulo - 25/04/2003 Foto: Wladimir de Souza / Agência O GloboJoão Gilberto Pereira de Oliveira nasceu em Juazeiro, na Bahia, em 10 de junho de 1931, e dedicou-se à música desde a adolescência Foto: Arquivo / Agência O GloboJoão compôs em 1956 "Bim bom", primeira música com a hoje lendária "batida da Bossa Nova". A música encantou Roberto Menescal, que apresentou João a Tom Jobim, mudando a história da música brasileira Foto: Arquivo / Reprodução
O cantor com Vinicius de Moraes e Tom Jobim, autores de "Chega de saudade", marco zero da Bossa Nova, gravada por João em 1958. Foto: Antônio Nery / Agência O GloboJoão Gilberto despede-se de Alaíde Costa e Luís Claudio, antes de embarcar para turnê em Buenos Aires, Argentina, em 1962 Foto: Arquivo / Agência O GloboJoão Gilberto descansando após um de seus shows em Buenos Aires, Argentina, onde se apresentou no Clube 676, em 1962 Foto: Arquivo / Agência O GloboO cantor João Gilberto e o filho Marcelo Gilberto Foto: Reprodução / Redes SoaiciaisJoão Gilberto e Caetano Veloso, em 1971 Foto: Arquivo / Agência O Globo
O cantor João Gilberto gravou o seu disco de estreia, "Chega de Saudade", em 1957 Foto: Arquivo / Agência O GloboJoão Gilberto durante gravação no Teatro Fênix para especial da Rede Globo - 08/06/1980 Foto: Alcyr Cavalcanti / Agência O GloboJoão Gilberto e a filha Bebel Gilberto. Gravação no Teatro Fênix para um especial da TV Globo - 08/06/1980 Foto: Alcyr Cavalcanti / Agência O GloboJoão Gilberto com Maria Bethania, Caetano Veloso e Gilberto Gil, em 1981 Foto: Rogério Sganzela / Divulgação
Embora muitos fatos relacionados a João Gilberto fossem criados, como se sua vida tivesse de ser tão extraordinária quanto sua arte, a transformação que ocorreu nos seis meses em Diamantina realmente aconteceram, num estranho processo de reinvenção difícil de explicar. Como terá chegado àquela batida de violão?
Por que mudou tão radicalmente o timbre de voz? E onde foi buscar a emissão, a divisão, a precisão, o jeito de cantar, de início aparentemente transgressor, mas, na realidade, preciso, adequado a todo tipo de canção, brasileira ou não? E de que forma voz e violão se integraram como uma coisa só, feitos um para o outro.
O fato é que o João Gilberto que volta ao Rio em 1957 vai, como diria Tom Jobim, influenciar “toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores”. Aos 26 anos. Criou assim a bossa nova, fez seguidores, ficou famoso. Cultuado no Brasil e admirado no mundo inteiro, gravou discos aqui e nos Estados Unidos, excursionou à Europa, apresentou-se em festivais, foi aplaudido no México e no Canadá, na Alemanha e no Japão.
Com esporádica passagens pelo Brasil, João Gilberto fez de Nova York o seu pouso. Em 1979, volta em definitivo. A partir de então e até 2008, ano de seu último show, cada subida ao palco é um acontecimento. Ou quando acontece, sempre com lotação esgotada, ou quando não, como o do Canecão (em 1979), cancelado por problemas de som que só o preciosismo de seus ouvidos detectou.
Cancelou também um show no Municipal, em 2011, pelo qual seu produtor seria condenado a devolver mais de R$ 500 mil ao teatro. Cancelou ainda, por problemas de saúde, a excursão comemorativa de seus 80 anos.
A maioria de seus últimos shows no Brasil deu-se em seu formato preferido: ele sozinho, terno e gravata, banquinho e violão. Sua relação com a plateia tinha de ser mutuamente respeitosa. Em várias ocasiões, zangado ou com um simples “psiu”, obrigou o público a fazer silêncio para ouvi-lo. 
Fonte: O Globo
Edição: Mário Pires Santana

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