terça-feira, 2 de julho de 2019

Uma carta para Lula

Por *Marco Aurélio de Carvalho
"Sei que você ainda continua prisioneiro de um grupo de poder que, sob a bandeira de uma causa inquestionável, inverteu toda a lógica de aplicação do Direito. A partir da premissa da culpa, foi forjada cada etapa do processo. Um jogo de cartas marcadas", diz o advogado Marco Aurélio de Carvalho, especializado em Direto Público.
“Caro Lula, Há um bom tempo gostaria de ter escrito esta carta. Será curta, para poupar seu tempo. Existem boas leituras aguardando a atenção dos seus olhos aí dentro. 
Sei que velhos amigos dispensam formalidades. Mesmo assim, antes de tudo, quero registrar sinceros agradecimentos. Recebi como demonstração de afeto e carinho o seu desejo de comparecer à minha despedida. Lá se vão mais de 30 anos e a nossa convivência faz lembrar o provérbio:" um verdadeiro amigo é mais chegado que um irmão". A nossa trajetória selou este destino fraterno. 
Não vou falar de reminiscências, nem pessoais, nem do projeto coletivo do País que sonhamos e compartilhamos inúmeras vezes. E não vou perder tempo com gozações corintianas. 
Sabe, amigo, não tenho acompanhado muito os últimos acontecimentos por aí. Estou entretido com as travessuras do seu neto Arthur que a pouco vi brincando aqui com dona Marisa. 
Mas como cronista privilegiado aqui do alto – agora com visão apurada sobre as circunstâncias humanas – percebo um certo mal-estar social. Há um desgosto no ambiente e foram registradas, aqui, avalanches de reclamações, pedidos e orações. Não é minha área, mas providências serão tomadas no tempo que não nos pertence. 
Soube do impacto despertado pelo filme “Democracia em vertigem”, comovente registro destes mares revoltos que assolam a terra Brasil. É pena que algumas figuras públicas relevantes ignoraram a dimensão do papel histórico que a conjuntura solicitava. Divergências exigem verdadeiro espírito democrático, de modo a não desejarmos veementemente a eliminação do outro. Emulados por um cálculo político (equivocado), seduzidos pela adulação dos holofotes e por gestos obsequiosos de “seguidores”, estas lideranças, ao final, se apequenaram na velha tradição de Maquiavel: “aos amigos os favores, aos inimigos a lei”. Os deuses da toga, no entanto, foram muito além. Estabeleceram que para os inimigos não resta nem sequer a lei. 
Sei que você ainda continua prisioneiro de um grupo de poder que, sob a bandeira de uma causa inquestionável, inverteu toda a lógica de aplicação do Direito. A partir da premissa da culpa, foi forjada cada etapa do processo. Um jogo de cartas marcadas. 
Para quem como eu, que tantas vezes percorreu as prisões e os tribunais, ao lado de perseguidos políticos, experimentar a canonização de procedimentos e métodos injustos, em especial no campo sagrado do Direito, causou profunda dor. 
Quero crer que o corpo, já fadigado, e fustigado pelos últimos acontecimentos, produziu os sintomas que desorganizaram o ciclo da minha passagem pelo mundo. Uma doença, muitas vezes, é decorrência das aflições da alma. 
Mas não ouso julgá-los. É o que aprendi aqui. A história há de fazer justiça, sobretudo quando as pessoas de bem ajudam os ponteiros do tempo a avançar para o momento da reparação de erros. 
Felizmente existem muitos ao lado do seu bom combate. Aqui do alto, não surpreende a ação de um intrépido jornalista norte-americano ao desvendar a trama que conduziu você ao cárcere e praticamente confiscou seus direitos políticos. A virtude da imparcialidade, o dever de isenção, foram destroçados. 
A recusa ao habeas corpus, ontem, estava predeterminada na agenda do arbítrio. Sei que a decisão não vai abatê-lo porque a serenidade ao enfrentar perseguições vi em seu rosto na noite fria em Curitiba ao arrumarmos a sua cama. Conheço a força interior, a capacidade de resiliência e a sua inabalável esperança por liberdade e justiça. 
Deixo meu abraço caloroso e saudações democráticas. 
Com a certeza de que lhe farão justiça, 
Sigmaringa Seixas, Sig.”
Este texto é uma modesta homenagem ao ex-deputado Sigmaringa Seixas, advogado e ativista pelas liberdades democráticas. Há seis meses, o País perdeu Sig, como era conhecido pelos mais próximos. 
Órfãos ficaram milhões de brasileiros diante de um País embrutecido, cujo núcleo central de poder intoxica o ambiente político-econômico com soluções improvisadas, ímpetos de autoritarismo e ataques aos direitos sociais, inclusive aqueles destinados a acolher minorias, vulneráveis e assegurar a diversidade. 
Lúcido, conciliador, firme nas convicções democráticas. Agora, mais do que nunca, frente a tanto ódio e a tanta intolerância, sua presença faria a grande diferença. 
A vida de Sigmaringa nos move e nos inspira. Aqui, hoje e no futuro.
Grifos do Editor
*Marco Aurélio de Carvalho é advogado.
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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