terça-feira, 20 de agosto de 2019

Em Curitiba, no cárcere da Policia Federal, apesar dos percalços e das fatalidades, Lula resiste

POR RENÉ RUSCHEL
Era final de tarde, quinta-feira, 5 de abril de 2018, quando o então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro, decretou a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do Instituto Lula, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, o líder petista se deslocou rapidamente para a sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo (SP), seu berço político. A batalha começava pelas ruas e avenidas. O carro que levava o ex-presidente foi seguido por repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Do alto, helicópteros acompanhavam ao vivo para a televisão. O Brasil parou e espetáculo midiático de uma prisão anunciada teve início.
Começava uma agonia que hoje completa 500 dias. Neste ínterim, passo a passo, a história do País começava a ser recontada. Uma espécie de antes e depois. O mandado de prisão estipulava que o réu deveria se apresentar à Policia Federal, em Curitiba, até as 17 horas do dia seguinte. Protegido por um pelotão de milhares de pessoas que cercavam a sede do Sindicato, Lula resistiu. A desobediência civil era apoiada pela multidão.
Foram horas de negociações. Antes de se entregar, Lula fez um discurso histórico. “Não sou mais um ser humano, sou uma ideia” afirmou. E concluiu dizendo que “os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera”. Em Curitiba, no cárcere da Policia Federal, apesar dos percalços e das fatalidades, das dores e poucas alegrias, Lula ainda resiste.
Chegada a Curitiba
Passava das 22 horas, quando o helicóptero que trazia Lula do aeroporto Afonso Pena pousou no heliponto da sede da Superintendência da Policia Federal, em Curitiba. Pouco mais de mil pessoas, entre militantes e simpatizantes, acenavam bandeiras e gritavam seu nome defronte o prédio. O ex-presidente desceu as escadas até o quarto andar, onde se encontra até hoje. Foi a senha para o batalhão da Policia Militar começar a atirar bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e balas de borracha contra a multidão. Por pouco não acontece uma carnificina. Até hoje não foi instaurado ou concluído nenhum inquérito para apurar os culpados. Naquela madrugada, a pouco mais de cinquenta metros, naquela que viria a se tornar a esquina Olga Benário, a então senadora e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, conclamou que “não sairemos daqui enquanto o presidente Lula estiver preso”. Nascia, naquele instante, a resistência popular contra o arbítrio judiciário.
Acampamento
Nos dias subsequentes, as cercanias da sede da PF foram ocupadas por milhares de pessoas que improvisaram acampamentos nas calçadas e vias públicas. Cerca de 5.000 pessoas se revezavam. A Policia Militar cercou a área. Uma verdadeira batalha jurídica foi travada entre o município, o estado e os movimentos populares que apoiavam o ex-presidente. Ficou acordado um espaço delimitado para os militantes e um acampamento foi instalado há cerca de 1,5 quilometro para receber os manifestantes. Neste cenário, houve tentativas de mortes com tiros que atingiram três pessoas, sem vítimas fatais. Apesar das câmeras terem flagrado e identificado as pessoas e as placas dos carros, nenhum inquérito apontou os culpados. Os processos dormem nas gavetas da Policia Civil, em Curitiba. Atualmente, um espaço privado foi alugado, bem em frente à sede da PF, onde está instalada a Vigília Lula Livre.
TRF-4 manda soltar Lula
No domingo, 8 de julho de 2018, por decisão do desembargador Rogério Favreto, o Brasil é surpreendido com a notícia que Lula seria solto naquele dia. Favreto acolheu um habeas corpus impetrado na sexta-feira, 6, pela defesa de Lula. “Cumpra-se em regime de urgência nesta data mediante apresentação do Alvará de Soltura ou desta ordem a qualquer autoridade policial presente na sede da carceragem da Superintendência da Policia Federal em Curitiba, onde se encontra recluso o paciente”, escreveu o desembargador. O então juiz Sérgio Moro, de férias em Portugal, interferiu no processo alegando que o desembargador não tinha competência para tanto. Assim, o relator da Lava Jato no Tribunal Regional Federal, João Pedro Gebran Neto, reverteu a determinação de Favreto.
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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