quarta-feira, 11 de setembro de 2019

As mãos de Elias


Por *Pádua Marques
Simplício Dias da Silva estava, como se dizia entre o cais do porto e os confins dos Tucuns, com o pé na cova da igreja da Graça. A cada dia ficava pior, já não se levantava mais sozinho da cadeira preguiçosa que o negro Elias, mesmo manco e com apenas um braço, todas as manhãs colocava no andar do meio da casa de morada entre a rua Grande e a igreja, dando vistas pra o movimento do porto Salgado e o estaleiro, fazia tempos desativado. 
A língua de Simplício Dias da Silva pesava dentro da boca desdentada e os olhos cinzentos e frios havia tempo, perdido o brilho de quando antes mandava executar qualquer serviço entre suas propriedades, dava ordens pra milícia ou ia pessoalmente ver a arrumação de tudo que estava sendo feito, até na cozinha. Agora mal reconhecia a mulher dona Isabel Tomásia, que não descansava um rasgo de tempo cuidando dele. Todos os dias as senhoras dos principais da Parnaíba vinham ver como o doente estava. 
Vinham, rezavam em voz baixa e iam saindo na direção da antes faustosa sala cheia de móveis pesados e escuros. Dona Isabel Tomásia ficava de cabeça baixa e a voz mais ainda, mandava servir um café, um refresco de caju ou de outra fruta, vinda dos Morros. Ela sabia que o marido não haveria de demorar mais muito tempo em cima da terra. Depois as visitas iam embora. Elias estava sempre por perto, mas mantinha a reserva da distância quando começavam as
rezas. De onde estava acompanhando ia se benzendo e sempre de olhos fitos no coronel.
Na rua e lá embaixo o movimento no porto Salgado e de tudo que dependia dele era o mesmo de todos os dias. Negros bem cedo carregando barris com água pra encher quartinhas, potes e tanques pra banho de seus senhores, lavadeiras descendo o barranco até os Tucuns em busca de um lugar bom pra lavagem de roupas, carroças de aluguel já ocupadas com gente importante ou de dinheiro na burra que não queria caminhar pelas ruas esburacadas ou cheias de pedras irregulares. Lá adiante alguém era de se cruzar e se afastar tapando o nariz com quatro negros nus da cintura pra cima transportando um barril cheio de fezes e urina tirado da casa de gente importante, algum doutor, juiz, capitão, comerciante de posses. Um dos negros trazia no pescoço um sinete pra advertir sobre como se afastar daquela carga incômoda e repulsiva. Iriam despejar lá embaixo, depois das lavadeiras, após a curva e já dentro dos Tucuns, que por isso passou a ser chamado de Cheira Mijo. 
As conversas na vila da Parnaíba naquele meio de setembro de 1829 entre quem descia ou subia nas embarcações vindas do Maranhão, entre as lavadeiras, os embarcadiços, donos de oficinas, comerciantes e seus fregueses, era de que o comandante e governador Simplício Dias da Silva, que era tido e havido como um dos mais ricos da província do Piauí, não haveria de durar até o final do mês. Pouco se sabia sobre a doença dele e aquilo era ainda mais motivo pra que gente de toda classe lhe desejasse a morte lenta e sofrida, pra pagar em cima da terra todo o mal que havia feito. Mas havia também gente, aqueles que se compadeciam. 
Elias estava sempre onde deveria por obrigação e ofício estar. Era agora o de um tudo na casa de morada. Não reclamava, não rogava praga nem mesmo quando sozinho ou entre o pessoal da cozinha, gente da sua condição. Era ele Elias quem tirava o velho Simplício Dias da Silva da rede tão logo este abria os olhos e mostrava pra ele ou dona Isabel jeito de querer ficar na sala, perto da janela de treliça e pegando a fresca vinda do rumo do Testa Branca. Depois levava mesmo sem um braço e manco da perna, pra rede, dava água de beber, banho, trocava as roupas de baixo e de cima, perguntava que dia era aquele ou quem era esta ou aquela criada. Tentava em vão lhe refrescar a memória. 
Elias dava comida na boca, limpava as migalhas de arroz ou uma gota do caldo de carne de boi, de peixe ou de uma franguinha de primeira pena, mandada dos Morros decretadinho pra Simplício Dias tomar uma sopa. Limpava o penico ao lado antes que chegassem visitas. Elias estava ali feito uma bengala. Fazia tudo. Tentava a todo custo dar ânimo a um homem que estava querendo morrer. De vez em quando o criado saía e ia até o fundo da casa ou do quintal. De longe era visto esfregando os olhos. Chorava e chorava muito. Olhava pra única mão encardida e calosa, pronta pra servir e fazer qualquer coisa.
Edição: Mário Pires Santana  

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