sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A um ano da eleição, falta vida real

Em cenário de desemprego, contratos intermitentes começam a crescer (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)
"Alguém vai pagar o preço pela falta de ação – ou ao menos de um olhar amigo de quem deveria cuidar disso – sobre questões que, em Brasília, andam parecendo abstrações: emprego, dívidas, assistência médica…", escreve a jornalista Helena Chagas, ao comentar que os temas essenciais do interesse público não entram em debate.
Por Helena Chagas, no Divergentes 
e para o Jornalistas pela Democracia

Todo mundo briga com todo mundo em todos os cantos de Brasília por motivos que, aos olhos da maioria dos cidadãos, soam como abstrações. Divisão dos recursos do leilão da cessão onerosa do pré-sal entre os entes federativos? Na tradução, é dindim no bolso dos políticos, mas a maioria desconhece isso. É o caso de se indagar até quando, pois a incompetência de uns e a indiferença de outros podem estar esquentando um caldo que, mais dia menos dia, vai transbordar.
Enquanto a turma de Brasília briga, nos bairros da periferia de São Paulo dezenas de médicos se despediam de seus pacientes, em alguns casos com choro, porque foram dispensados com o fim do programa Mais Médicos. O governo anunciou, mas até agora, claramente, não sabe ainda o que colocar no lugar do Mais Médicos. No Jornal Nacional desta quinta, o desalento de adultos,
idosos e crianças que vão ficar sem médico – até porque não têm plano de saúde nem dinheiro para pagar consulta.
Também pouco se ouve falar por aqui na queda da renda. Muito pelo contrário, um dos temas preferidos da capital esta semana foi a críticas do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao destaque do Senado à reforma da Previdência, estendendo o pagamento do abono salarial a trabalhadores que ganham até R$ 2 mil, em vez de restringi-lo ao teto de R$ 1.300. Muita gente deve ter ficado feliz Brasil afora, mas terá notado o nariz torcido de Guedes pela perda de R$ 76 bi na economia da reforma ao longo de dez anos.
Mais uma vez, o IBGE divulga resultados da POF, a pesquisa de orçamento familiar, mostrando que as famílias estão mais endividadas que há dez anos, e que não está sobrando nada para investir em bens duráveis – caiu em 1,7 p.p. O comprometimento da renda para investimentos desse tipo. Mais dados: 23,9% das famílias vivem com R$ 1.245 mensais em média, e o peso do transporte no orçamento familiar ultrapassou pela primeira vez o da alimentação.
Ninguém por aqui quer falar sobre isso não, gente?
Ou então sobre um tema do cotidiano tão importante, como os direitos da criança. A disputa nas eleições para os Conselhos Tutelares no país tomou conta das redes, ares de luta religiosa. Igrejas evangélicas e setores conservadores estão investindo tudo para eleger conselheiros para abolir da pauta desses conselhos questões ligadas à liberdade de gênero nas escolas e aos casais homoafetivos. Você sabia que pode votar no próximo domingo para eleger conselheiros na região de seu domicílio eleitoral?
Eu não sabia. Estava muito envolvida nas brigas de Brasília.
Daqui a exatamente um ano vamos ter eleições – e são municipais, ligadas ao dia-a-dia do cidadão, cada vez mais abandonado e perplexo com o que está acontecendo no governo e em seus arredores. Alguém vai pagar o preço pela falta de ação – ou ao menos de um olhar amigo de quem deveria cuidar disso – sobre questões que, em Brasília, andam parecendo abstrações: emprego, dívidas, assistência médica…
Fonte: Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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