quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Uma pedra necessária no sapato da Europa

Apesar da alta taxa de abstenção nas urnas, as legislativas de Portugal confirmam o sucesso da forte aliança das esquerdas de vários matizes e a derrota histórica das direitas
Por Lea Maria Aarão Reis 
Créditos da foto: O candidato socialista António Costa (Miguel Riopa/AFP)
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Apesar da alta abstenção de 45,5 por cento de votos no eleitorado registrado, de 10 milhões de indivíduos, no continente e nos territórios de além mar, vemos uma inequívoca vitória das esquerdas, nas eleições legislativas de Portugal de domingo último, com a consequente derrota histórica da direita de discurso neoliberal.
Deste modo, a Geringonça - a notável união das esquerdas - adquire uma nova vida mesmo que o Partido Socialista não tenha alcançado uma maioria absoluta, como aliás não era o esperado. Melhor ainda azeitada, faz de Portugal um dos bastiões de resistência ao neoliberalismo e ao neofascismo europeu.
Mas os socialistas se mostram com plenas condições de governança, em conjunto com o Bloco de Esquerda, os verdes, os comunistas, trotskistas, marxistas e, agora, com a coligação acrescida de mais uma agremiação de esquerda, o Livre. A partir do próximo dia 27, quando os deputados assumem seus lugares no Parlamento, provavelmente pautas importantes que visam a
continuar proporcionando estabilidade e bem estar ao povo continuarão sendo discutidas e, apontam os prognósticos, aprovadas.
Dentre elas: descongelamento dos salários de professores e enfermeiros. Reforço orçamentário nas áreas de transporte público, habitação e educação. Desprivatização dos Correios. Creches gratuitas para crianças até os três anos de idade, e dois temas mais ásperos: aumento do salário mínimo, hoje na casa dos 650, para 850 euros e a legalização da eutanásia.
Mais uma vez, o Primeiro Ministro António Costa, líder do PS, de 58 anos, um lisboeta de origem indiana, casado, formado em Direito pela Universidade de Lisboa, político de grande habilidade e negociador talentoso, ascende ao poder e afasta de vez, pelo menos pelos próximos anos, o risco de Portugal acabar caindo nas mãos de uma extrema direita, ''como a de Bolsonaro, no Brasil'', nas palavras, em discurso de campanha, da brilhante coordenadora do Bloco de Esquerda, (BE), Catarina Martins, uma das mais fortes e jovens lideranças de Portugal atualmente.
Embora o líder do Partido Comunista Português, Jeronimo de Souza, declare que ''os comunistas não perderam sua identidade'', o PCP encolheu. Mas Souza faz uma observação importante a propósito da inesperada grande abstenção nas urnas - o que denota o desinteresse pela política: ''A televisão'', disse ele , ''é uma das principais responsáveis por esse fenômeno porque ela acaba atrofiando as mentes''.
O apelo emocionado do escritor Valer Hugo Mãe conclamando a população para não deixar de ir às urnas, publicado nas vésperas das eleições, no Jornal de Noticias da cidade do Porto, não foi ouvido. Escreveu Hugo Mãe: ''O voto significa a ratificação da democracia como sistema admitido''.
E outra líder da nova geração da esquerda mais 'pura' (BE) sobre quem ainda vamos ouvir falar com frequência, a deputada Joana Mortágua, advertiu, a respeito do assunto, depois de apuradas todas as urnas: abstenção é um tema complexo, importantíssimo e sobre o qual é preciso, daqui para a frente, discutir e refletir com seriedade.
Como um recado para o Brasil, mesmo não intencional, como se fosse uma mensagem para brasileiros, Mortágua acrescentou num dos seus brilhantes discursos de campanha: ''Vamos lutar com a força que nos darão as urnas contra a promiscuidade entre o publico e o privado''.
Uma das mais negativas heranças que herdamos, e que se perpetua, entranhada na nossa vida nacional.
Fonte: Carta Maior
Edição:Mário Pires Santana

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