sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Ocupação Alceu Valença mergulha na dimensão temporal do cantor

A mostra tem curadoria de equipe do instituto, formada pelos núcleos de Artes Cênicas e de Música.
Por Marco Antônio Vilarinho
O ano encerra no Itaú Cultural embalado pelo universo de Alceu Valença – dos versos às rimas, do baião ao frevo, do circo ao cinema, perpassando toda a sua vida e obra. O ano 2020, começa no instituto com o mesmo espírito. A Ocupação Alceu Valença é inaugurada no dia 14 de dezembro e se estende até 2 de fevereiro. A mostra tem curadoria de equipe do instituto, formada pelos núcleos de Artes Cênicas e de Música. A consultoria é de Julio Moura, autor de A luneta do tempo – um diário dos bastidores do filme de Alceu Valença, e a cenografia leva a assinatura do artista Leopoldo Nóbrega, criador no Carnaval de 2019 e no próximo da figura do Galo da Madrugada, um dos maiores blocos da folia pernambucana.
Trata-se da 48ª Ocupação, série realizada pelo instituto desde 2009 na qual celebra artistas brasileiros que influenciaram e influenciam gerações, figuras essenciais da arte e cultura do país. Tendo como fio condutor uma das principais questões do cantor e compositor pernambucano – o tempo, que não para –, a exposição apresenta ao público fotografias, poemas, músicas, audiovisuais, objetos e produções literárias de sua autoria.
Há ferramentas de acessibilidade e conteúdos digitais, entre QR Codes e uma
experiência imersiva em realidade virtual em 360 graus narrada pelo próprio músico (veja mais abaixo). Ainda, no site itaucultural.org.br/ocupacao, o público encontra materiais inéditos, em textos e vídeos, desta e das demais ocupações.
A pesquisa teve início no acervo da mãe do músico, Adelma Valença, morta em outubro de 2018 aos 104 anos. Ela foi um forte estímulo na carreira musical do filho. Foi quem lhe deu, por exemplo, o seu primeiro violão, a contragosto do marido que queria ver o filho diplomado doutor em direito. Quando a sua carreira começou a acontecer e depois deslanchou, ela passou a guardar tudo o que dizia respeito ao seu menino. São muitos os mundos que ele percorreu nestas cinco décadas de carreira, aos quais o público tem acesso na Ocupação dividida em seis eixos.
Nascido na Fazenda Riachão, em São Bento do Una, no agreste pernambucano, o pequeno foi cravado pela cultura de sua terra natal – a feira da cidade, o circo, o cinema, a vaquejada, os aboiadores e violeiros. Suas primeiras influências vieram dos cantadores de feira, de Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Marinês. Eles são a base de sua personalidade musical. Valença subiu pela primeira vez ao palco aos seis anos para concorrer em um concurso de talentos mirins de sua cidade. Ficou em segundo lugar com a música Meu bem, de Capiba. Aos 26, em 1972, disparou na carreira com o disco de estreia gravado em parceria com Geraldo Azevedo. Até hoje gravou 31 deles.
Alceu Valença chegou a cursar a Universidade Federal de Pernambuco e se formou advogado. Foi para Harvard, selecionado pela Associação Universitária Internacional graças à resposta que escreveu para “estabeleça a relação entre Cristianismo e Marxismo” – ela está estampada em um dos eixos da Ocupação.
O mundo deste pernambucano é como um caleidoscópio, onde, além da música cabem o cinema, o circo, a literatura, poesia, dramaturgia. Os seis eixos da Ocupação Alceu Valença pontuam todos eles, ao redor de uma representação do agreste no centro do espaço expositivo. Na Ocupação, o público é recebido em uma antessala onde se lê seu poema O Tempo, exposto também em braile. Na sequência, se entra em um espaço com baixa luminosidade, pontuado de estrelas, em uma referência à luneta de seu filme A luneta do tempo (2014) e à constelação da família. Em seguida, tem a projeção de A Noite do Espantalho, filme de Sérgio Ricardo onde ele fez papel principal e representou o Brasil no Oscar para o melhor filme estrangeiro, em 1975.
O segundo eixo percorre a sua obra, parcerias e estrada, em uma espécie de psicodelia. O terceiro segue por Olinda. Ouve-se o mar e se vê Alceu Valença fazer breves aparições na janela. Também tem audiovisuais, como um super 8 gravado por ele mesmo, uma obra imersiva em 360 graus, sobre a cidade, e a gravação de um trecho de show que o cantor fez em Pernambuco, quando percebeu a presença de Dom Helder Câmara na plateia, e lhe fez uma homenagem.
Uma porta, na sequência, dá acesso ao eixo 4, o coração da mostra e representante do agreste. Tem paredes de barro, uma árvore feita de corda de sisal no centro, uma projeção de São Bento do Una atualmente, imagens de A Luneta do Tempo, referências circenses e um audiovisual em que o cantor pede chuva para o universo.
A passagem para o quinto eixo é feita entre uma lona de circo, lembrando que Valença queria trabalhar no picadeiro. A partir dali o público repassa toda a discografia do pernambucano e acessa a uma playlist criada pelo instituto com suas músicas para ouvir no Spotify. A saída pelo eixo 6 não poderia ser outra: referências ao Carnaval com uma paisagem sonora do HD pessoal do cantor construída por sons carnavalescos. Neste eixo também tem uma vitrola com 18 discos disponíveis para o público ouvir.
Fonte: portalodia.com
Edição: Mário Pires Santana

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