sábado, 25 de janeiro de 2020

*Augusto, o inventor da paz*

Por *Gustavo Rosal

Suponho que necessite de paz. Trago-me às montanhas nevadas, vales, fulgurantes visões da natureza - mas não quero nada disso. Neguei esmolas à uma criança atrevida, por costume. Lembro-me das crianças. Os desenhos animados aonde a paz era uma ciranda loira que rodopiava. Uma brincadeira de pequenos beatos com seus vícios inconsistentes. Até esquecem dessas curvas do ego se lhes acomete a teimosia de uma qualquer educação - ao menos até o próximo passo. Mas nós, deuses e subalternos na escala nós, insistimos, irremediáveis. Cansamo-nos de cirandas, partimos aos bailes, formaturas, aniversários de família, promoções e tristemente nos acorrentamos ao cansaço de tantas maravilhas que poderiam vir. A paz, enfim, é isso? O cansaço das virtuoses prendas da vida? A humildade sublime de não ter qualidades? Não sou criança e nunca fui adepto de confraternizações. Guardo meus olhos de marasmo, cheios de ternura, para renegar a paz. Detenho a vaidade de conceito e excelência, a frustração de tudo, o orgulho de um samurai abatido obstando-me à paz. Paz? Mas não é a paz feita de pequenezas? A paz não pode ser, realmente, essa distante miniatura de abstração. Ainda observo os
meninos, então os veículos, as organizações...
- Opa, Rosal!
- Fala!

Passou o meu colega Augusto, aquele que não existe. Percebo-me distraído, penso no Flamengo, nas comicidades. De repente, criamos a paz, em conjunto, com a leviandade desejada, como qualquer coisa luminosa que se use para fugirmos dos nós de durante a treva e o silêncio. O espírito recorda que de nada vale não sonhar. Deixo-me a ver os dias, cativo da paz, com muitos motivos.
24.01.20.
Rosal.
*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana

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