segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

*Gratas surpresas*

Por *Gustavo Rosal

A capacidade de surpreender-se é uma beleza banal, no entanto sinto-me profundamente grato por reconhecê-la ainda minha. Surpreendo-me rotineiramente. Hoje, por exemplo, a manhã chorava sobre minha janela e o som oco e contínuo das águas, o gris daquelas formas tornavam pacífico o meu sono entrecortado de logo antes de acordar. Nesse tempo febril a chuva é um gracejo da surpresa. E também há coisas menos nobres, de pouca divulgação na graça da surpresa. Não por isso menos dignas. O causo impúdico narrado pelo cidadão ao funcionário de estado e o riso que se reprime sem vigor, o cão a saltitar com vistosas peças de frigorífico, como fugindo, cínico e maravilhoso, as cadeiras que cedem com moças sensuais nos bares e o reerguer-se dessas moças como um quadro de fino desconcerto. Vi, antes do anoitecer, uma motocicleta com um largo caixote acoplado, para entregas, fretes. Detrás do caixote: "mantenha distância 90km" com tortuosas letras de piche. Ri pelos residenciais. Que seria da vida sem as repentinas insinuações do bom humor?.
*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana



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