segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

*O dono do paredão*


Por *Gustavo Rosal

Cada escritor elege um método. Particularmente, visito locais públicos, onde possa perder minha atenção, deixá-la divertir-se, fazer poses involuntárias, imersões cômicas aos outros; noto os homens e as contingências da natureza que parece sempre surpreender-se em sociedade. Uma curiosa relação daí se desenvolve. Diálogos longos e repentinamente próximos que despontam, constantes suspeitas de estar entre conhecidos, instrumentos de som acoplados aos porta-malas dos Sienas de cor preta, placa XXX-0000, ano de fabricação e modelo 0000/00, na amplitude exata da perturbação. Não obstante, estou, por circunstância, há 3,5 metros distante de um Siena de cor preta a tocar o Xande Vol. 984 em um bar que vou por ser silencioso - e tento escrever. Talvez seja afetação, mas daqui se ostenta um mandamento da empresa: "proibido som nesta área...". Observo por um momento o rapaz do Siena. Ele nada observa. Seus olhos, os mais concentrados na plausibilidade das coisas. Aquele universo material impressionantemente comum que parece recarregar-se nas repetitivas percursões, sotaques poderosos, e em uma gama
de onomatopeias transbordantes de Nordeste e vitalidade.
18.01.20.
*Perfil: Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana

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