quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

*Párias*

Por *Gustavo Rosal

As cidades, como os homens, são feitas de passagens. O espesso fio que corre trazendo as aventuras e os detalhes de um tempo. Em Parnaíba, é moda visitar-se a "praça do amor", que fica próxima ao meu prédio. Vejo séries de famílias belas à páginas sociais, com suas criancinhas bilíngues, mas também vejo sujeitos simples, comerciantes gordos, de voz alta, com seus bonés noturnos, discrepâncias; não vejo solitários. A solidão parece agredir a consciência do meu povo. E, como se ao solitário uma estranha gentileza assoviasse, preservam o povo de bem de sua presença maldita. Resta o pária, contudo. Pedintes infestam a aldeia, com seus andrajos, seus vestígios. Um passa por mim a tilintar latas de alumínio e verter sobre o chão bebida qualquer. Sou gente de bem, sentencio - e os meus olhos vêem, assim sem querer, também o lixo dos bons. Vem-me, em um lance, a cruel consciência. Percebo que sou o único solitário e que o peso do pária de fora é menos triste que o pária de dentro e os olhos grandes de sua solidão. 
- Aqui o seu wrap, senhor. 
- Obrigado. 
Me delicio, vou à casa e descanso, com conforto.
*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana

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