sábado, 4 de janeiro de 2020

Que falta faz um Lula global

Por *Gustavo Conde
"As bombas atômicas estadunidenses jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 6 e 9 de agosto de 1945 mataram mais de 300 mil civis. Foi, sem dúvida nenhuma, o assassinato em massa mais covarde da história da humanidade", diz o colunista Gustavo Conde ao explicar a apatia da imprensa internacional diante de Trump a falta que faz um líder pacifista global
As bombas atômicas estadunidenses jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki em 6 e 9 de agosto de 1945 mataram mais de 300 mil civis.
Foi, sem dúvida nenhuma, o assassinato em massa mais covarde da história da humanidade. Eu nunca entendi muito bem porque quase toda a historiografia ocidental interpreta esse crime-catástrofe como um episódio quase marginal, que "pôs fim à Segunda Guerra".
Pôs fim à Segunda Guerra?
Pôs fim a 300 mil vidas.
É chocante o nível de peleguismo argumentativo dos textos que narram essa página horrenda da história.
É a mesma matriz discursiva usada para a invasão ao Iraque em 2003 e para este ataque a Bagdá de dois dias atrás: em 2003, eram armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. Em 2020 é para "prevenir" o terrorismo. Como aceitar essa explicação recorrente e tenebrosamente absurda dada por milhares de jornalistas, intelectuais e historiadores espalhados pelo mundo há mais de 70 anos?
Os verbetes de toda e qualquer enciclopédia (esse monstro obsoleto em extinção), Barsa, Mérito, Abril, Larousse, Britânica... Da Wikipedia, de dicionários educacionais online, enfim, de toda e qualquer fonte deste miserável mundo de deus, trata o maior atentado terrorista da história como um "mal necessário", um ato de "heroísmo" dos americanos.
Explica-se a apatia da imprensa internacional quando o assunto são os EUA.
Há pesquisas sobre o tema? Sim. E pesquisas que lhe restituem a monstruosidade (há pesquisas competentes de brasileiros sobretudo com enfoque na questão migratória).
Mas são textos de acesso muito limitado e que ficam segregados nos confins das bibliotecas universitárias ou encalhados nas livrarias brasileiras que, por sinal, quase não existem mais.
Há nuances de discurso incontornáveis em grande parte do material de texto disponível sobre o episódio: interdições narrativas, apagamentos estatísticos e, sobretudo, uma indiferença chocante no que diz respeito ao agente agressor.
O trauma foi tão gigantesco que o Japão nem teve condições de absorvê-lo na esteira das incompreensões humanas e/ou desejos de vingança. O Japão teve de "sublimar" o acontecimento, tão chocante e devastador que foi.
Gilberto Gil escreveu uma vez: "uma bomba sobre o Japão fez nascer o Japão da paz". Esse enunciado, transportado para o campo do comentário político se traduz na lógica desumana e cínica dos EUA: mata-se para defender a paz.
Não há desculpas, não há reparações, não há autocrítica. Os japoneses até aprofundaram suas relações com os EUA, tornando-se um das maiores potências econômicas do mundo.
Foi o caminho certo? Para quem? Como saber?
Talvez a lição dos japoneses, mais uma das grandes vítimas da extrema violência que os EUA espalham pelo mundo, seja: não lute, trabalhe.
Ou: a luta é exatamente essa: trabalhar.
Haja paciência para trabalhar e continuar enriquecendo esse país que consome e dispõe de quase toda a riqueza material do planeta.
Os EUA são a Rede Globo do mundo. Enriquecem sem parar às custas de 6,5 bilhões de pessoas (já que os 1,3 bilhões de chineses trabalham para si, obrigado).
Que falta faz um Lula global.
*Gustavo Conde é linguista
Fonte:Brasil 247
Edição: Mário Pires Santana

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