segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

*Cortiça*

Por *Gustavo Rosal

Gostemos ou não, as músicas têm a propriedade que convencionou-se chamar "chiclete". Incorporadas aos dias, materializam-se, somam-se a nós, desvendamos as histórias de amor e ódio que nos entregam e algo depois já nos entendiamos; perdem-se aos dias. Uma percussão, uma forma de pronunciar, um arranjo qualquer e elas vêm novamente, até o ciclo concluir. Cantarolo um trechinho assim do Chico Buarque, que fala de uma cortiça. Eu nem sabia o que era cortiça. Durante as crises, chego a repetir os versos até que me olhem ou que me perceba, na voz baixa de quem não sabe cantar. Arrisco prosseguir, mas nunca me lembro do restante. Improviso, faço as adaptações e tananã, a música volta à palavra cortiça, com outras poucas originais para servir de séquito.
- O que tu tanto canta?
- É uma música do Chico Buarque.
- E é assim mesmo? Disfarço, altivo, rei dos mistérios inúteis. A música tem dessas coisas. Mesmo desconhecendo o seu sentido, deixamos-nos a ela, sutilmente, e inspiramo-nos. A verdade é que deturpo as obras, ofendo os
compositores, mas fosse eu, talvez, sorrisse, um pouco envaidecido com alguém tão distante a cantarolar minha cortiça.
27.01.20.
*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana

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