terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

*Das Dor*

Por Gustavo Rosal

Uma senhora que vende doces me abordou, enquanto eu esperava o jantar, nos arredores do Mirante. Trazia os olhos de quem viu mais do que nós, a pele curtida e uma magreza de nervosa ou de quem deve muito. Neguei a oferta, mas simpatizei com a fragilidade da mulher. De repente, ouço, com a voz rouquenha, na ousadia dos idosos:
- O senhor parece... sabe quem? Aquele ator, o Homem-Aranha. 
Havia qualquer coisa de elogio. Sorri fraquinho, como os que ouviram o dizer inusitado, estando para graça. Fiquei pensando na senhora. Me pareceu por bem ter nome de senhora; seria Lourdes, Fátima? Talvez algum diminutivo, que tão fielmente caracteriza tais figuras: Carminha, Francisquinha, Raimundinha? No entanto, tinha mesmo era cara de das Dores, que a língua ignara transforma em das Dor. Não via mais a das Dor, perdida em seu blusão de prefeitura, seus chinelinhos azuis, silenciosos, pelas mesas diferentes. Que débito cármico, espiritual, de manipansos? Que crença lhe bastou a suportar a vida? Que amor de adolescente lhe tocou, enrubesceu as
maçãs de sua face e depois, como acontece, lhe deixou? Não saberei. Certamente compro chicletes no próximo encontro.
06.02.20.
*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de
Edição: Mário Pires Santana

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