domingo, 23 de fevereiro de 2020

Ó Constituição, por que estás tão triste?

Quando tudo nesse governo parece um espetáculo cafona, nada mais lúcido do que viver o Carnaval
POR *ANA PAULA LEMES DE SOUZA/OPINIÃO
FOLIÕES DA TOM MAIOR VESTEM CAMISETAS COM IMAGEM DE MARIELLE FRANCO. FOTO: NELSON ALMEIDA/AFP
É Carnaval, tempos de festas, purpurinas, músicas e alegrias. De resistências, corpos em latência, sambas-enredo, confetes e serpentinas. Tempos de alegria arrastada nas ruas, de cantar a possibilidade de cura da alma com as experimentações da carne. De celebrar a mera possibilidade de celebrar, mesmo sem ter o que ser celebrado, porque é preciso resistir, é necessário sambar, mesmo que para manter os pés nas nuvens com o que ainda resta de sanidade.
Alguém pergunta para a Constituição, amuada no canto do festim, olhando o bloco passar, enquanto entoa a velha marchinha. Ó Constituição, por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Ela responde com a voz embargada que quando tudo é bagunça e farra, ousado mesmo é se manter serena.
Se o país, virado ao avesso, parece um carro-alegórico de foliões e fantoches ensandecidos, o samba deve se transformar em outra coisa, reconectando com a sua mais profunda beleza. Sem ser jamais possuído, deve reencontrar as suas potências de resistir, mesmos nos espaços mais marginais.
FOLIÕES DA TOM MAIOR VESTEM CAMISETAS COM IMAGEM DE MARIELLE FRANCO. FOTO: NELSON ALMEIDA/AFP
É preciso recolocar os pés no samba, como nos velhos fundos de quintais, onde os negros africanos se encontravam para resistirem juntos à escravidão e ao exílio, apesar de suas diferenças; para cantarem uns com os outros os seus mecanismos de reinvenção e de sobrevivência às mazelas; para entoarem em rimas e ritmos as suas capacidades de lidarem com o que há de mais pútrido e terrível, como a colonização e o escravismo; para fazerem dos seus corpos pura poesia renitente, pleonasma eloquente que, pela repetição de passos e gestos, faz elogio à vida.
O Brasil em frangalhos, cheio de novas fantasias enganosas
Em tempos de Estado de Exceção, da normalização dos absurdos, devaneios se tornam banais e esvaziam o próprio sentido do tempo. Quando direitos constitucionais viram oba-oba nas bocas pútridas de juízes, é preciso restaurar no direito, tal como no samba, não a alegria efusiva, mas a potência de curar as feridas, recolocando a Constituição como mestre-sala da ala.
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Precisamos da potência do samba quando a política se transforma em polícia, mero uso da força bruta; quando se atira no peito para matar, tal como com Cid Gomes, por policiais mascarados e amotinados em estado de barbárie, que afrontaram decisão do STF de que direito de greve de agentes de segurança pública é flagrantemente inconstitucional; quando se manda matar brutalmente uma parlamentar e militante, como Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, em um crime já há 710 dias sem solução; quando se mata todos aqueles que poderiam dar, enfim, a solução da barbárie, apagando os corpos como o de Adriano de Nóbrega, ligado às milícias e ao Flávio Bolsonaro, segundo investigação conduzida pelo Ministério Público estadual, suspeito de envolvimento no caso Marielle.
Fracassamos como civilização quando um repórter noticia ao vivo a morte de uma filha à sua mãe, aprofundando a sociedade do espetáculo, para falar como Debord; quando a biblioteca do Planalto iria simplesmente ser desmontada para abrigar gabinete da primeira dama; quando se investe toda a libido cínica e vil em exploração econômica de terra indígena, flexibilizando ou anulando licenciamento ambiental, aprofundando o Estado desde sempre genocida; quando se tenta esvaziar o poder do Ibama e do ICMBio, considerados entraves às cancerosas fomes pelo dinheiro dos agentes do poder.
GABRIEL MONTEIRO|RIOTUR
Fracassamos quando o STF, em ritmo carnavalesco, adia pauta importantíssima sobre inconstitucionalidade de isenção fiscal para agrotóxicos; quando Jair Bolsonaro, para se escudar de fraude eleitoral, mais uma vez é sexista e misógino, atacando a jornalista Patrícia Campos Mello da Folha de S.Paulo, tal como Hans River a atacou, em uma rede de mentiras e fake news — justo ela que desmontou essa mesma rede de milícias digitais que se banalizou nas últimas eleições; quando Moro, agora não mais com a toga, mas como ministro, persegue politicamente Lula, visando a intimidá-lo, usando a Lei de Segurança Nacional, a partir de uma fala em que Lula sugeriu a ligação de Bolsonaro com as milícias, mesma arma utilizada na ditadura militar para perseguir opositores.
A coisa vai grave para a Constituição quando a sua guardiã, a ministra do STF Rosa Weber, por vias oblíquas, consolida o Estado de Exceção, mandando arquivar o caso da interpelação de Glenn Greenwald contra Bolsonaro, que afirmou que o jornalista editor do The Intercept poderia “pegar uma cana” no Brasil. A ministra fez com que a liberdade de expressão virasse guarda-chuva, balizando perseguição jornalística, ao considerar que o discurso absurdo do chefe do Executivo foi um “direito constitucional de livre manifestação do pensamento”.
jair Bolsonaro ataca a liberdade de expressão frontalmente, com investidas contra os jornalistas. De outra parte, seus comentários de conteúdos infamantes, difamatórios, preconceituosos, sexistas e homofóbicos são normalizados, sendo sempre perdoado por seus erros, dados como efusivos exageros.
Vivemos o tempo em que tudo parece simulacro, uma encenação na ala, um cortejo carnavalesco de mau gosto, soando mesmo como um pesadelo sem fim. Quando tudo parece um espetáculo cafona, nada mais lúcido do que viver o Carnaval, reabilitando as nossas possibilidades de resistirmos juntos. Apesar disso tudo, continuamos firmes, cantando e sambando. E abre alas!
A Constituição pede então o seu pedido final: não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar…
“Vem Constituição, vem meu amor! Não fique triste, que este mundo é todo teu. Tu és muito mais bonita que o bom senso deste país que morreu!”.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital
Fonte: CartaCapital
Edição: Mário Pires Santana

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