sábado, 29 de fevereiro de 2020

Tschznnnzah!tsss...

Por *Gustvo Rosal


Tschznnnzah!tsss... Eu ouvi e fiquei buscando de onde saía o ruído. Debaixo da mesa? Mas poderia ser? Havia o meu mocassim recém colocado nos pés e em sua beirada uma faísca cor de gelo a se extinguir. Fedor de queimado principiava no ar. Era um fio com remendo de fita, do ventilador, e eu pisei certinho nele. Mesmo antes de identificar o ocorrido insurgia-se em mim um sentimento bizarro como o do roedor alheio à serpente que passa e após, por instinto, a percebe sumir, já sem risco ou violência, mas os seus nervos inflamados palpitam feito uma reverberação da morte. Depois (o que é curioso) pensei mais no mocassim do que na morte - parece-me que essa senhora é sempre abrupta, até para deixar-se ir. Um instante se passa e noto que esqueci o carregador do celular no trabalho. Um aiai, 3%, 1%, 0%, mas não faz mal, não, ainda que houvesse uma tarde restante, uma noite e as possibilidades do imprevisto, que normalmente prevemos. No entanto, nada disso me pareceu mais existir, pois o banal fora de nosso alcance vai perecendo. Estava apenas o som do mundo que é o quarto, sem mais distorções, e tão
significativo quanto qualquer coisa desde que tenhamos atenção sobre ela. Diante do silêncio nós percebemos.
21.02.20
*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana 

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