quinta-feira, 19 de março de 2020

A serra

Por *Gustavo Rosal

A explicação no livro era atroz: legítimos e ilegítimos, uns sobre a competência de outros, nulidades, a necessidade de remeter derrotas, a confiança que se dispõe e que se paga, o simplismo a que são reduzidas as condutas e os significados dos grandes eventos do coração, mas isso tudo era estritamente precioso para mim como a ata o é para o relator, portanto me povoava de entendimentos; à soslaio, pela esquerda, cresce uma massa exótica e vem lentamente em minha direção, como um beduíno impassível a cortar areias e ventos. O tempo é outro, logo, não me atento de início, mas a massa insiste em crescer sem assumir identidade e de forma tal que torna-se indispensável olhar. É uma serra de coisas presas à uma rede branca de material fino, possivelmente nylon. Grandes bolas, boias infantis para piscinas, brinquedos em formato de herois feitos de ar e plástico sobre os ombros densos e o rosto intangível de uma pessoa que caminha para algum lugar, passa por mim e não me vê. As leis sob minha análise perdem as suas capacidades de absurdo e tornam-se evidentes porque já não importam nesse instante. Nada
importa, senão o objetivo maior daquele que sobe pela rua com a sua serra.
14.03.20.
Imagem/Reprodução/Web
*Gustavo Rosal é escritor, especialmente poeta, cronista e contista. Participou das coletâneas "Versania" e "Contos entre Gerações", ambas de repercussão na cidade de Parnaíba, para além de outras publicações em jornais culturais, revistas, sites, blogs, redes sociais e afins, a exemplo do jornal "O Piagüí", o blog da Academia Parnaibana de Letras, o espaço "Escrever sem Fronteiras", de iniciativa do Sesc, "Trema", "Gueto", "Vacatussa". É bacharelando em Direito pela UESPI. Nascido em Teresina, no ano de 1996.
Edição: Mário Pires Santana

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